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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cristiano Jerônimo - Vozes de Aço


Todos os anos a Editora Poet Art, de Volta Redonda (RJ), imprime uma coletânea com os melhores poemas selecionados no concurso Vozes de Aço, que tem abrangência nacional. 

Na edição de 2009, o homenageado no projeto foi o poeta custodiense CRISTIANO JERONIMO com o poema Necessárias, faço a ponte Nordeste-Sudeste de Poesia, á que a maioria esmagadora dos poetas é do Sul-Sudeste.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O caminho das serras no inverno - Cristiano Jerônimo



A sequência de serras que circunda o limite do município de Custódia com os de Carnaíba, Afogados da Ingazeira e Iguaracy é um espetáculo para quem tem oportunidade de subir até seus brejos de altitude e chapadas com caldeirões de pedras repletos d’água, gelada o dia inteiro por ser coberta com pastas verdes. Para beber a água usamos a palha em forma de concha do coco catulé (também conhecido como coco-da-quaresma). A criação de cabras, como chamamos, anda pelas trilhas das serras e quando o fruto maduro do catulé cai, os bodes põem na boca e começam a remoer um caroço pequeno, mas com casca igual a de coco normal. Eles comem a carnosidade externa, amarelada e doce. Os caprinos trazem os caroços duros, na boca, até os arredores da fazenda, onde quebramos com pedras e encontramos uma amêndoa deliciosa do tamanho de um caroço de azeitona grande.

Tudo isso é sertão para mim. Estou escrevendo sobre a cadeia de montanhas e o campo porque tenho dois filhos – Victor Valeriano, 10 anos, e José Pedro Valeriano, 5, e eles pouco conhecem das entranhas daquele bioma chamado de caatinga. Entre os altos, estão as serras da Mata Grande, Minador, Leitão, Mimoso, Zabumba, Urubu, Brejinho, Travessão do Caroá, entre outras. Estava pensando como faço para levar meus filhos até lá. Cheguei a pensar em reabrir o caminho onde, um dia, vi estrada e carros subirem até o topo. Isso foi por volta de 1994, no governo de Belchior Nunes, que construiu um posto de saúde ao lado da Escola Municipal Francisco Domingues de Rezende (meu tataravô materno por parte de Vó Marina). Embora meu tio Djaniro Jerônimo de Rezende (Dejo de Odilon) fosse vereador já no quinto ou sexto mandato consecutivo pela Arena, PDS, PFL e, em oposição, Belchior era Arraesista de carteirinha, mesmo assim o prefeito socialista mandou abrir o caminho do Mimoso de baixo (sede da fazenda) até o topo da serra de mesmo nome.


Vivi minha infância andando nestas subidas e descidas de grotas e montanhas ora verdes ora secas. Saí de 7h da manhã para o Leitão da Carapuça, voltando para casa às 9h da noite. Lá, encontrei cavernas com pedras de calcita multicoloridas que, geladas, podiam ser extraídas da base, no sopé de um paredão de pedra. Acima do que chamamos de pedra do giz, tem as pinturas rupestres que meus avós e tios-avó citavam como existentes, mas não sabiam do que se tratava. Tio Tonhinho Rodrigues Rezende disse, certa vez, que eram estrangeiros. Perguntei a ele sobre o caminho. Confirmei com meu avô Odilon Jerônimo, que alertou: “Mas já faz 40 anos que não ando por lá. É melhor vocês não irem” –. Fomos e descobrimos. Soube, anos mais tarde, que tratava-se do Sítio Arqueológico da Serra da Carapuça, com pinturas datadas de cerca de 2.300 anos, de acordo com pesquisadores da UFPE.

Os momentos paradisíacos de água no sertão reacendem o tempo inteiro na minha memória. Agora mesmo a região está assim. Encharcada, verde, florida de canafístulas amarelas e flores de todas as cores. Borboletas vestidas de tonalidades fantásticas de desenhos perfeitos de simetria. A natureza em sua forma de vida mais abundante. Quitimbú (berço de Custódia) está frio. O açude de Brotas, em Afogados da Ingazeira, está sangrando, ainda neste mês de julho, desde a Semana Santa. Uma Traíra (de uns 30cm) assada na brasa está por R$ 3,00 (duas por R$ 5,00) na beira do sangradouro da parede da represa, nas corredeiras de água entre pedras. Quero levar meus filhos, meus irmãos, meus pais. Quem quiser ir, vamos embora! Uma infinidade de outros açudes, barragens, barreiros, poços estão cheios. E o sertão não virou mar. Será?

Por Cristiano Jerônimo

domingo, 18 de setembro de 2011

Caminhão



O meu juízo tem um para-choque mutante de caminhão;
A minha boca é um megafone horizontal de ideais;
Só acredito nos aprendizes que aprendem tudo sempre;
Eternamente, os mestres formam mestres e não súditos.


O medo do saber é uma ferramenta para manter o poder.
Em vão, porque, após algumas tentativas mais difíceis,
A manutenção de um estado permanente ainda não vinga.
Eu só creio em sementes que só insistem em brotar sempre.


O meu conciso é tão relativo quanto o retrato do nunca;
Infelizmente, o que vejo e o que calo não fazem muito bem.
Mas deixei de andar nas espirituais e negativas espeluncas;
Sem, por isso, ficar dando explicações a quase ninguém.


Sabemos de tudo o que nos faz mal e também do que faz bem.
O protagonismo é uma linha inevitável na independência do ser.
Nem sempre fazem o que, na verdade, melhor lhe convém.
Confundem a beleza de ser humano com a crueldade do ter.


Nem tudo aquilo que se aprende trata-se de um saber.
Se você não acredita, não imagino que possa ter.
Não adianta se enganar e partir para dizer foi sem querer.
Nós sabemos da verdade e não esperamos ver pra crer.


Cristiano Jerônimo

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O caminho das serras de Custódia




Objetivo: circundar as serras, as elevações montalhosas e longas que existiam ao lado da Fazenda Mimoso, de propriedade dos meus avós maternos (Odilon Jerônimo de Oliveira e Maria Marina Rezende). Não dava para ser a pé, logicamente. Era de moto e moto grande 200cc. Que beleza. De um lado fica a Serra do Sabá, em seguida tem a Serra do Urubu, Serra da Zabumba, Serra do Mimoso e Mata Grande (pertencente outrora a Osório Valeriano - meu bisavô paterno).

Ainda tínhamos num outro dia que percorrer o lado oposto, das serras opostas às outras. Tudo começou subindo a Serra da Velha Chica. Uma paisagem fotográfica. Descamba no município de Iguaraci. Pega a estrada sentido Iguaraci-Quitimbu. Entre à direita e vai para o Lajedo. A história eu continuo amanhã com o Rachadão do Caroá, em Carnaíba, e o Leitão da Carapuça, Afogados da Ingazeira.

Cristiano Jerônimo

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sertão no mês de Junho


Foto: Cristiano Jerônimo/Custódia-PE


A serração lava a serra
Leva o frio dos vapores
Que gelam minha alma.

As canafístulas
Estão amarelas.
Os caldeirões
Repletos.

Cada grota
Tem seu córrego,
Água límpida,
Brotando
Dos serrotes.

Riachos
E açudes
Cristalinos,
Pleno o Sertão.

De belezas
Contrastantes;
Porém belas.
Das aranhas
Às libélulas.

Cristiano Jerônimo

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Asfalto de Feira


É quando eu sei que o Sertão está molhado que o conterrâneo do Moxotó, Paulo Joaquim Peterson Pereira, convida para escrever no blog mais movimentado da região. O de Custódia, minha terra natal. Sou do mato. Sempre andei pouco na rua. Sempre gostei de ir em cima da camionete, 24 quilômetros, da Fazenda Mimoso para a Feira de Custódia, imaterializada às segundas-feiras. 

No domingo era dia da Feira de Quitimbú que, praticamente, acabou no final da década de 1980 e início da de 1990. Agora, de três anos para cá, é que a feira de Quitimbú está sortida e movimentada. Bolsa tudo para as famílias, a economia aquece. Mas há quem diga que a mão-de-obra esteja escassa e mais cara, por incrível que pareça. Lula lá é rei.

O povo do Alto Pajeú, além da população que vive em função dos quase 45 quilômetros que ligam a BR-232, no Centro de Custódia, ao município de Iguaracy, aguarda ansiosa e sonha com o calçamento da rodovia, uma PE, que dá acesso a Afogados da Ingazeira, Paraíba ou Sertânia e suas saídas. O secretário de Transportes de Pernambuco, Sebastião Oliveira, que manda nas estradas, além de ser nosso vizinho de Serra Talhada, é primo e afilhado político do veterano deputado federal Inocêncio Oliveira, serra-talhadense que sempre gozou de muitos votos nos locais que precisam da obra.

Com isso, as crianças, adolescentes, adultos e idosos do mato poderão ir para a rua, no dia de feira ou outro qualquer, bem mais rápido e de forma desenvolvida. O acesso escolar dá um salto de qualidade fora de série, como diz meu pai. Só não terão o prazer de rechear o cabelo de poeira no verão. Quando chegava do sítio em Custódia, batia no cabelo e caía dois quilos de barro amarelo em forma de poeira. Batia na roupa, caía outro tanto. Hoje, não quero mais andar à cavalo ou égua. Prefiro o barulho de uma 200 cilindradas. Faz tudo o que um cavalo faz e um pouco mais. Bem mais. Movida à gasolina. É. Cavalo do matuto agora é moto. Só não anda de motocicleta quem está de besta. É brincadeira, mas o negócio da estrada é o asfalto da feira!

Cristiano Jerônimo é jornalista e escritor pernambucano.

 
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