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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Lampião visita Custódia-PE - Anildomá Willans de Souza


Lampião o rei da caatinga. 
3ª edição
Serra Talhada/PE: 
Gráfica aquarela 2001. 

Anildomá Willans de Souza, nasceu em Serra Talhada-PE, no dia 8 de abril de 1962. Filho de João Alexandre de Souza e Maria Ramalho Ângelo. É dedicado à atividade folclórica, tendo suas atenções voltadas para a pesquisa histórica da região sertaneja do Pajeú. Milita no movimento cultural do estado de Pernambuco.

O livro escrito por Anildomá busca passar informações históricas sobre a vida do cangaceiro Virgolino Ferreira da Silva, visando contribuir para o conhecimento da cultura nordestina. Segundo os estudos realizados, é preciso entender a época, a sociedade sertaneja das primeiras décadas do Século XX.

Segundo o autor, Virgolino Ferreira, não era apenas um bandido, era também um homem com valores respeitáveis e seguiria um rumo não traçado pelos seus pais.

Sua vida foi sempre determinada a se vingar da morte dos seus pais, que sofreram com as rixas entre a família de Zé Sartunino, um fazendeiro que após desentendimento com a família de Lampião, fez com que eles se mudassem para outro estado, indo para Alagoas.

Aos poucos os irmãos de Lampião foram sendo mortos, por participarem de grandes confrontos com policiais que lutavam no intuito de acabar com o bando do temido Lampião.

Lampião era um homem religioso, que sempre buscou respeito à igreja, aos valores familiares, não aceitava cangaceiros com atitudes fora do padrão moral, mas matava por acha que os bons eram perseguidos por coronéis que tinham apoio da justiça, e com isso precisavam ser eliminados ou roubados para poder ajudar os pobres que sofriam com essas injustiças.

No começo do século XX no Nordeste, as classes dominantes eram muito poderosas, detendo poderes políticos e financeiros, realizando um papel de “comandantes” do sertão. Naquela época, onde a polícia exercia um papel muito vezes confundida com a de bandidos, o povo sofria porque não tinha perspectiva de melhora de vida, porque ou servia aos coronéis ou entrava em algum bando de cangaceiros.

Virgolino Ferreira nasceu nunha família simples, de muitos irmãos, que trabalhavam na agricultura e também se dedicavam a outras atividades. Devido a uma confusão com outra família, eles tiveram que se mudar para outro estado, a fim de tentarem viver uma vida mais tranqüila e sem problemas. Mas não foi assim que aconteceu.

Desde criança foi acostumado a rezar, a trabalhar, sempre procurando ajudar a família no seu sustento. Aprendeu a ler e a escrever, quando aproveitou a oportunidade que era coisa rara no sertão nordestino daquele tempo. Como qualquer pessoa em fase de crescimento, Virgolino conheceu as coisas boas da vida, e como o destino ele não sabia, a vida o levou a caminhos perigosos a fazendo parte do cangaço.

Naquela época, muitas lutas eram deferidas por causas de mal entendidos, ciladas provocadas pelos coronéis que usavam da covardia para atingir seus objetivos, e uma delas, onde Virgolino, vulgo Lampião, participou foi a da morte de Gonzaga Ferraz, que morreu após um ataque do bando de Lampião a sua casa, apoiado por um sertanejo conhecido por Ioiô maroto, que após ter sido vitima de uma cilada de coronéis inimigos, partiu para se vingar. Não sabia ele que tudo era proveniente de uma cilada.

Nêgo Tibúrcio era um cangaceiro que espalhava medo e terror por onde passava, tendo no passado servido à família de Zé Saturnino. Por onde ele passava, sempre falava de Lampião, seu inimigo, a quem desejava muito matar. Num certo dia, Lampião sabendo de sua presença na cidade de Santa Maria, o confrontou e acabou matando-o.

Durante o período em que a família de Lampião vivia uma vida tranquila, um jovem rapaz de nome Antônio Rosa passou a fazer parte da mesma, após ser abandonado pela sua própria família, que o deixando por conta da família de Lampião um certo período de tempo prometeram após o retorno de uma viajem à juazeiro do Norte, pegá-lo de volta. Ele cresceu acompanhando Lampião e com o tempo foi se destacando chegando a fazer parte do seu bando. Mas por conta de ter matado um homem simplesmente por um motivo fútil, foi morto pelos cangaceiros.

Lampião num certo dia visitou uma cidade de nome Custódia, onde foi recebido pelos moradores com um certo espanto, após acordarem. Como ele não estava ali para promover alguma batalha e sim suprir as suas necessidades, logo foi se familiarizando com os comerciantes e com as pessoas da cidade que ficaram um pouco espantadas com as sua ações de homem respeitador dos conceitos de moral, comprando e pagando tudo como manda o figurino.

Naquele tempo estava acontecendo uma insurreição por conta dos revoltosos da Coluna Prestes que queriam derrubar o governo federal, e nesse período eles estavam percorrendo o sertão do nordeste. Sabendo disso o governo tratou de convocar um regime de urgência. O Dr Floro Bartolomeu foi designado para combater os revoltosos. Usando do posto de comandante, logo ele teve a ideia de convocar Lampião e seu bando para lutarem a favor das tropas do governo para combater a coluna prestes, dando a Lampião a patente de Capitão e aos cangaceiros a de soldados.

Os irmãos de Lampião também faziam parte do seu bando, e como a vida de um cangaceiro era sempre marcada por mortes, o fim mais esperado por eles, foi inevitável a morte dos seus irmãos em combates.

Como a vida de um cangaceiro não era apenas de viver combatendo com os seus inimigos, Lampião durante uma passagem a uma cidade na Bahia conheceu uma mulher de nome Maria Gomes de Oliveira. Ela faria parte do bando e seria chamada de Maria Bonita, a primeira mulher a participar do cangaço.

E no ano de 1938, na grota de Angicos, Lampião e seu bando foram assassinados sem nenhuma forma de reação. Seria o fim de um dos maiores nomes do cangaço no nordeste, que buscou fazer justiça com as próprias mãos.

O autor utiliza o método indutivo, recorrendo a bibliografias ligadas a história do cangaço para poder fornecer os dados expostos no livro. Foram adotados como ponto de vista o funcionalismo.O autor recorreu a técnicas de entrevistas formais e informais, historia de vida e etc.

Trata-se de uma obra que explora muito os problemas no sertão nordestino, usando técnicas de coletas de dados, informações pessoais, datas e etc, que permitem ao leitor um vasto perfil da época.

Esta obra é de grande interesse para os estudiosos e pesquisadores do sertão nordestino, de linguagem simples e de fácil interpretação.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Passagem de Lampião por Custódia




Quando esse fato ocorreu, Custódia ainda era uma vila pertencente a atual Sertânia, antiga Alagoa de Baixo. Lugar aconchegante e simpático, de uma gente bastante ordeira, dedicada ao comércio, a agricultura de subsistência e criação de bode.

É uma das cidades sertanejas que mais têm se destacado como lugar de paz, mesmo quando o restante da região sofre com atormentadas encrencas de famílias, que levam muitos à morte. Em Custódia, mesmo com os problemas que lhe são pertinentes por ser uma cidade igual às outras em qualquer parte do Brasil, o sossego reina.

O dia vinha amanhecendo – 11.02.1925 – como outro qualquer. Mas quem ia abrindo a janela ou a porta de casa ia tendo uma grande surpresa ao se deparar com um grupo de cangaceiros em plena praça. Uns sentados no chão, outros escorados nas árvores, na maior tranqüilidade que se possa imaginar. Quem vinha passando para ir ao açougue comprar carne ou verdura apressava o passo com receio que pudesse acontecer ao dar de cara com Lampião e seus quarenta cabras.

Nos arredores que dão acesso as estradas da vila encontravam-se pequenos grupos de três ou quatro cangaceiros para dar segurança aos que entraram na rua principal.Essa tranqüilidade dos cangaceiros devia-se a Lampião estar informado, misteriosamente, não se sabe como, que os praças do destacamento local haviam fugido logo antes do amanhecer, na chegada dos visitantes, avisados por alguém. Ficaram apenas dois, que naquela noite não estava dormindo no quartel, e sim em suas residências. Eram eles, João de Paula e Pedro Soares. Esse último era um negro apelidado de Capuxu.

As autoridades do campo da política também haviam fugido sem tomar nenhuma medida. Eram os senhores Ernesto Queiroz e Dr. Tenório. As poucos as pessoas foram se chegando e conversando com os cangaceiros, a meninada com toda sua curiosidade fazendo mil e umas perguntas e eles respondendo, contando histórias para impressionar os presentes que ima se aglomerando mais e mais a cada instante. Quando a cidade já estava totalmente acordada os cangaceiros se espalharam em turmas e foram para as bodegas fazer compras, beber cachaça, e tudo era pago corretamente.

Lampião, acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, e de seus cabras Luiz Pedro, Félix da Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Petro, Chumbinho, Sabino, Sabiá, André e Jurema se dirigiram para os maiores comerciantes do lugar, Zé Moura e Zé Rouxinol, deixou claro que aquelas passagem por ali era apenas para aquisição de munição, mas casa não tivesse a munição aceitava o dinheiro para comprar posteriormente. Em toda casa ou pessoas que encontravam e pediam dinheiro, explicava o Rei do Cangaço:

“-Arrepare não a gente ta pedindo assim. É porque o governo num dêxa nóis trabaiá”.

Ao chegarem numa casa encontraram o soldado Capuxu e pediram a arma.

“-Só eu indo buscar no quarté”.

Respondeu, sem titubear, o milico.

Lampião disse:“- Se tivesse mais macacos com você, era capaz de brigar com meus meninos?”

Como se diz aqui no sertão, a resposta foi em cima da fivela.

“- Sim. Cumpriria meu dever até a morte”.

E acrescentou:

“- Se estivesse num grupo de cangaceiros também faria a mesma coisa”.

Lampião sorriu e mandou o soldado ir embora sem constrangimento. Assim que o militar retirou-se, o chefe dos cangaceiros virou-se para seus cabras e disse:

“- Home desse tipo tem que ficar vivo para tirar raça de gente valente”.

Enquanto Lampião circulava pela vila conversando com os comerciantes e pessoas influentes do lugar, o restante da cabroeira, pelas bodegas, no meio da praça ou onde estivessem, eram alvo de admiração de muita gente. Aqui e acolá alguém pedia para dançarem um pouco de xaxado, e dançavam com satisfação. Alguns rapazes e meninos procuravam imitá-los arrastando o pé no ritmo da “dança de cabra macho”.

Ao atravessar a rua encontrou Valdevino Alfaiate abrindo sua alfaiataria. Cumprimentou e pediu para olhar o mostruário. Enquanto olhava os tecidos o mestre da tesoura perguntou:

“- Lampião, é verdade que esses homens são muito valentes?”

Rindo, respondeu:

“- Home, qui us cabras são atrevidos, lá isso são. Mas comigo eles já sabem como são as comidas…I têm que comê sem inguiá”.

Agradou-se de um certo brim e perguntou ao alfaiate se seria possível confeccionar um terno para entregar ainda naquele dia, puxando até a boca da noite. Respondeu que sim. Em tom de voz bastante calma e branda, Lampião teve o cuidado de dizer:

“- Se você acha que fazendo esse trabalho pra mim, pode causar problemas pra sua vida, então não faça. Não tem problema nenhum”.

O profissional disse apenas que faria aquele terno com o maior prazer e iria, a partir daquele momento, mobilizar toda a sua equipe para entregar na hora desejada. Foram tiradas as medidas e puseram mãos a obra.

Saiu da alfaiataria e rumou com seu grupo para a mercearia de Jovino Costa Leão, onde estava outros cangaceiros bebericando e cantando, ritmando com palmas. Lampião dançou um dos passos de xaxado para umas moças que estavam olhando de longe.

Agora se dirigia para a farmácia quando encontrou o coletor José Guilherme, que a partir desse momento andaram todo tempo juntos, fazendo as visitas.

Na farmácia, pertencente ao farmacêutico Joaquim Pereira da Silva, comprou mercúrio, gases, comprimidos Bayer, pagou e pôs o pacote das comprar no bornal. Pediu ao mesmo que verificasse uns dois cangaceiros que já poucos dias foram feridos num tiroteio acontecido em Cachoeira dos Galdinos, contra volantes de Betânia e Nazaré. Os ferimentos não eram graves. Vinham tratando até ali com casca, raízes e folhas, mas se agora estavam numa farmácia, nada como um especialista. Joaquim justificou que para cuidar de ferimentos, seu amigo e também farmacêutico, era mais preparado, e assim, chamou o colega, que tinha o nome de Manoel Cristovão dos Santos. Este demonstrou muita habilidade no que fazia. Cuidou dos ferimentos dos cangaceiros com muita maestria.

Lampião, que a tudo assistia, ficou admirado com a presteza, atenção e, sobretudo, com a aptidão em tratamentos desta natureza que o jovem Manoel demonstrava, que de imediato convidou a ingressar no cangaço, para ser o médico oficial do seu grupo.

A resposta foi negativa, mas mesmo assim, agradou mais uma vez ao Rei do Cangaço:

“- Lampião, hoje tenho família pra cuidar. Mas toda vez que precisar de mim pode me procurar. Se for o caso, pode mandar um dos seus meninos me avisar que irei na hora”.

Sempre acompanhado, Lampião chega agora à residência de um cidadão chamado Zé de Moura, cumprimentou toda sua família gentilmente, comeu uns doces e sentou-se numa espreguiçadeira na calçada. Disse bonachão:

“- Ô Zé, tu vive dizendo que eu num entro em Custódia, qui si eu vim aqui, morro”.

Antes do trêmulo pai de família dizer uma palavra, ouviu o complemento:

“- Deixe de ser besta, Home. Agora tô eu aqui na tua espreguiçadeira, na tua calçada…”.

Após uns quarentas minutos conversando a vizinhança e curiosos que vinham lhe visitar e prosear, viu passando uma pessoa que disseram ser o telegrafista. De fato, era o agente do telégrafo Kepler Lafaiete. Lampião chamou o rapaz e foram todos para o posto e enviaram uns telegramas para o Governador do Estado, Sérgio Loreto, com uma série desaforos, chamando o chefe do Estado de covarde e que mandasse o chefe do birô dando ordens, empurrando os soldados no fogo. Interessante, esse telegrama foi a única coisa que Lampião não pagou quando esteve em Custódia. Disse debochadamente ao telegrafista:

“- Não vou pagar esse telegrama porque o telégrafo é do governo. Além do mais estou enviando para o próprio governo. Se eu pagar estou roubando eu mesmo”.

Todos que estavam ai riram da caçoada do Comandante das Caatingas.

A noite vinha chegando e a maioria do bando, com Lampião à frente, chegaram na casa do comerciante Zé Rouxinol. Como fora combinado previamente, um farto jantar foi servido, com os cangaceiros se revezando na mesa com os que estavam montando guarda.

Já estava dando horas da noite quando Lampião chegou à alfaiataria e o Valdevino estava sentado em sua confortável cadeira aguardando seu famoso cliente. Este chegou, verificou a roupa, gostou. Não queria experimentar tirando o que estava vestindo. Abriu o bornal e tirou uma nota alta e pagou conforme combinado.

“- Lampião, pra mim o trabalho só é completo quando o freguês testa”, disse o alfaiate.

Lampião não contou conversa. Foi na camarinha, se desequipou todo e vestiu a roupa nova:

“- Está ótima!”.

Disse Lampião abrindo um sorriso. Foi motivo de alegria também para o mestre.

Despediram-se.

Em seguida o alfaiate fechou seu estabelecimento e foi apressadamente pra casa.

Quando os cangaceiros foram beber nas bodegas e mercearias, bater pernas pelas calçadas, conversar com as pessoas, até a madrugada chegar.

Quando Custódia dormiu, os cangaceiros desapareceram dentro das caatingas.

Trecho retirado do livro LAMPIÃO nem herói nem bandido A História, de Anildomá Willians de Souza, lançado em 2007 pelo escritor que é membro da Academia Serra-talhadense de Letras e da União Brasileira de Escritores/PE.

Contato do autor:
Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 – Cohab
56.909-110
Serra Talhada-PE
Telefone: (87) 3831-2041
E-mail: cabrasdelampiao@bol.com.br

Passagem de Lampião por Custódia




Quando esse fato ocorreu, Custódia ainda era uma vila pertencente a atual Sertânia, antiga Alagoa de Baixo. Lugar aconchegante e simpático, de uma gente bastante ordeira, dedicada ao comércio, a agricultura de subsistência e criação de bode.

É uma das cidades sertanejas que mais têm se destacado como lugar de paz, mesmo quando o restante da região sofre com atormentadas encrencas de famílias, que levam muitos à morte. Em Custódia, mesmo com os problemas que lhe são pertinentes por ser uma cidade igual às outras em qualquer parte do Brasil, o sossego reina.

O dia vinha amanhecendo – 11.02.1925 – como outro qualquer. Mas quem ia abrindo a janela ou a porta de casa ia tendo uma grande surpresa ao se deparar com um grupo de cangaceiros em plena praça. Uns sentados no chão, outros escorados nas árvores, na maior tranqüilidade que se possa imaginar. Quem vinha passando para ir ao açougue comprar carne ou verdura apressava o passo com receio que pudesse acontecer ao dar de cara com Lampião e seus quarenta cabras.

Nos arredores que dão acesso as estradas da vila encontravam-se pequenos grupos de três ou quatro cangaceiros para dar segurança aos que entraram na rua principal.Essa tranqüilidade dos cangaceiros devia-se a Lampião estar informado, misteriosamente, não se sabe como, que os praças do destacamento local haviam fugido logo antes do amanhecer, na chegada dos visitantes, avisados por alguém. Ficaram apenas dois, que naquela noite não estava dormindo no quartel, e sim em suas residências. Eram eles, João de Paula e Pedro Soares. Esse último era um negro apelidado de Capuxu.

As autoridades do campo da política também haviam fugido sem tomar nenhuma medida. Eram os senhores Ernesto Queiroz e Dr. Tenório. As poucos as pessoas foram se chegando e conversando com os cangaceiros, a meninada com toda sua curiosidade fazendo mil e umas perguntas e eles respondendo, contando histórias para impressionar os presentes que ima se aglomerando mais e mais a cada instante. Quando a cidade já estava totalmente acordada os cangaceiros se espalharam em turmas e foram para as bodegas fazer compras, beber cachaça, e tudo era pago corretamente.

Lampião, acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, e de seus cabras Luiz Pedro, Félix da Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Petro, Chumbinho, Sabino, Sabiá, André e Jurema se dirigiram para os maiores comerciantes do lugar, Zé Moura e Zé Rouxinol, deixou claro que aquelas passagem por ali era apenas para aquisição de munição, mas casa não tivesse a munição aceitava o dinheiro para comprar posteriormente. Em toda casa ou pessoas que encontravam e pediam dinheiro, explicava o Rei do Cangaço:

“-Arrepare não a gente ta pedindo assim. É porque o governo num dêxa nóis trabaiá”.

Ao chegarem numa casa encontraram o soldado Capuxu e pediram a arma.

“-Só eu indo buscar no quarté”.

Respondeu, sem titubear, o milico.

Lampião disse:“- Se tivesse mais macacos com você, era capaz de brigar com meus meninos?”

Como se diz aqui no sertão, a resposta foi em cima da fivela.

“- Sim. Cumpriria meu dever até a morte”.

E acrescentou:

“- Se estivesse num grupo de cangaceiros também faria a mesma coisa”.

Lampião sorriu e mandou o soldado ir embora sem constrangimento. Assim que o militar retirou-se, o chefe dos cangaceiros virou-se para seus cabras e disse:

“- Home desse tipo tem que ficar vivo para tirar raça de gente valente”.

Enquanto Lampião circulava pela vila conversando com os comerciantes e pessoas influentes do lugar, o restante da cabroeira, pelas bodegas, no meio da praça ou onde estivessem, eram alvo de admiração de muita gente. Aqui e acolá alguém pedia para dançarem um pouco de xaxado, e dançavam com satisfação. Alguns rapazes e meninos procuravam imitá-los arrastando o pé no ritmo da “dança de cabra macho”.

Ao atravessar a rua encontrou Valdevino Alfaiate abrindo sua alfaiataria. Cumprimentou e pediu para olhar o mostruário. Enquanto olhava os tecidos o mestre da tesoura perguntou:

“- Lampião, é verdade que esses homens são muito valentes?”

Rindo, respondeu:

“- Home, qui us cabras são atrevidos, lá isso são. Mas comigo eles já sabem como são as comidas…I têm que comê sem inguiá”.

Agradou-se de um certo brim e perguntou ao alfaiate se seria possível confeccionar um terno para entregar ainda naquele dia, puxando até a boca da noite. Respondeu que sim. Em tom de voz bastante calma e branda, Lampião teve o cuidado de dizer:

“- Se você acha que fazendo esse trabalho pra mim, pode causar problemas pra sua vida, então não faça. Não tem problema nenhum”.

O profissional disse apenas que faria aquele terno com o maior prazer e iria, a partir daquele momento, mobilizar toda a sua equipe para entregar na hora desejada. Foram tiradas as medidas e puseram mãos a obra.

Saiu da alfaiataria e rumou com seu grupo para a mercearia de Jovino Costa Leão, onde estava outros cangaceiros bebericando e cantando, ritmando com palmas. Lampião dançou um dos passos de xaxado para umas moças que estavam olhando de longe.

Agora se dirigia para a farmácia quando encontrou o coletor José Guilherme, que a partir desse momento andaram todo tempo juntos, fazendo as visitas.

Na farmácia, pertencente ao farmacêutico Joaquim Pereira da Silva, comprou mercúrio, gases, comprimidos Bayer, pagou e pôs o pacote das comprar no bornal. Pediu ao mesmo que verificasse uns dois cangaceiros que já poucos dias foram feridos num tiroteio acontecido em Cachoeira dos Galdinos, contra volantes de Betânia e Nazaré. Os ferimentos não eram graves. Vinham tratando até ali com casca, raízes e folhas, mas se agora estavam numa farmácia, nada como um especialista. Joaquim justificou que para cuidar de ferimentos, seu amigo e também farmacêutico, era mais preparado, e assim, chamou o colega, que tinha o nome de Manoel Cristovão dos Santos. Este demonstrou muita habilidade no que fazia. Cuidou dos ferimentos dos cangaceiros com muita maestria.

Lampião, que a tudo assistia, ficou admirado com a presteza, atenção e, sobretudo, com a aptidão em tratamentos desta natureza que o jovem Manoel demonstrava, que de imediato convidou a ingressar no cangaço, para ser o médico oficial do seu grupo.

A resposta foi negativa, mas mesmo assim, agradou mais uma vez ao Rei do Cangaço:

“- Lampião, hoje tenho família pra cuidar. Mas toda vez que precisar de mim pode me procurar. Se for o caso, pode mandar um dos seus meninos me avisar que irei na hora”.

Sempre acompanhado, Lampião chega agora à residência de um cidadão chamado Zé de Moura, cumprimentou toda sua família gentilmente, comeu uns doces e sentou-se numa espreguiçadeira na calçada. Disse bonachão:

“- Ô Zé, tu vive dizendo que eu num entro em Custódia, qui si eu vim aqui, morro”.

Antes do trêmulo pai de família dizer uma palavra, ouviu o complemento:

“- Deixe de ser besta, Home. Agora tô eu aqui na tua espreguiçadeira, na tua calçada…”.

Após uns quarentas minutos conversando a vizinhança e curiosos que vinham lhe visitar e prosear, viu passando uma pessoa que disseram ser o telegrafista. De fato, era o agente do telégrafo Kepler Lafaiete. Lampião chamou o rapaz e foram todos para o posto e enviaram uns telegramas para o Governador do Estado, Sérgio Loreto, com uma série desaforos, chamando o chefe do Estado de covarde e que mandasse o chefe do birô dando ordens, empurrando os soldados no fogo. Interessante, esse telegrama foi a única coisa que Lampião não pagou quando esteve em Custódia. Disse debochadamente ao telegrafista:

“- Não vou pagar esse telegrama porque o telégrafo é do governo. Além do mais estou enviando para o próprio governo. Se eu pagar estou roubando eu mesmo”.

Todos que estavam ai riram da caçoada do Comandante das Caatingas.

A noite vinha chegando e a maioria do bando, com Lampião à frente, chegaram na casa do comerciante Zé Rouxinol. Como fora combinado previamente, um farto jantar foi servido, com os cangaceiros se revezando na mesa com os que estavam montando guarda.

Já estava dando horas da noite quando Lampião chegou à alfaiataria e o Valdevino estava sentado em sua confortável cadeira aguardando seu famoso cliente. Este chegou, verificou a roupa, gostou. Não queria experimentar tirando o que estava vestindo. Abriu o bornal e tirou uma nota alta e pagou conforme combinado.

“- Lampião, pra mim o trabalho só é completo quando o freguês testa”, disse o alfaiate.

Lampião não contou conversa. Foi na camarinha, se desequipou todo e vestiu a roupa nova:

“- Está ótima!”.

Disse Lampião abrindo um sorriso. Foi motivo de alegria também para o mestre.

Despediram-se.

Em seguida o alfaiate fechou seu estabelecimento e foi apressadamente pra casa.

Quando os cangaceiros foram beber nas bodegas e mercearias, bater pernas pelas calçadas, conversar com as pessoas, até a madrugada chegar.

Quando Custódia dormiu, os cangaceiros desapareceram dentro das caatingas.

Trecho retirado do livro LAMPIÃO nem herói nem bandido A História, de Anildomá Willians de Souza, lançado em 2007 pelo escritor que é membro da Academia Serra-talhadense de Letras e da União Brasileira de Escritores/PE.

Contato do autor:
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