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sábado, 31 de março de 2012

Livro Salão de Sombras - verso Paisagem do Sertão


No livro “Salão de Sombras” do escritor, músico, compositor, poeta e líder cultural sertaniense Waldemar Cordeiro, a cidade de Custódia é citada no verso “Paisagem do Sertão“. 

Nele o sertão é distribuído em: Ipanema, Moxotó, Pajeú, Baixa Verde, São Francisco e Chapéu de Couro

Abaixo o trecho com Custódia:


II
Custódia. Nos grotões onde a água mina,
nos contra-fortes de Jabitacá,
destila como um filtro de água fina
e decantada fonte de Sabá.


O livro foi lançado em maio de 1992 pelo Conselho Municipal de Cultura, da Secretaria de Educação e Cultura da Cidade do Recife.

sábado, 10 de março de 2012

Livro O Cristo da Paixão - Ano II


A Casa das Juventudes de Custódia, vai Lançar o Livro do O Cristo da Paixão, com  Histórico, Release, Atores convidados do O Cristo da Paixão – Ano II, Figurantes do Ano II e muito mais.

Aguardem!!!  

Fonte: Blog Mateus Gois
http://mateusgois.com.br/

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Lourdes de Deus - Lembranças do sítio


A escritora e pesquisadora, com mestrado e doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade de Paris/8, Mazé Torquato Choti, nascida em Mato Grosso, acaba de lançar o livro "LEMBRANÇAS DO SÍTIO" pela editora ADC. A capa tem ilustrações da artista plástica custodiense LOURDES DE DEUS.  Mazé reside atualmente em Paris,  é casada com o poeta, cantor e compositor Bernard Chotil. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Passagem de Frei Damião por Custódia



A princípio o taumaturgo descreveu as delícias do céu, os querubins tocando harpa e uma nuvem de incenso vagando no azul, entre anjos e santos. A multidão ouvia em silêncio, maravilhada e boquiaberta. Então, de repente, o frade mudou. Sacudiu os braços e soltou a maldição terrível: – Homens sem Deus, mergulhados na lama do pecado. Amancebados! Mentirosos! Adúlteros! Arrependei-vos de vossos pecados! – E passou a descrever as torturas do inferno. Labaredas subiam, tochas ardendo, um relógio marcando: Sempre! Sempre! Nunca! Nunca! Que são as horas da Eternidade. E no meio da fornalha, o suplício do fumaceiro de enxofre sufocando tudo. Aí a multidão se abateu, lábias ciciavam. “Eu pecador, me confesso a Deus”, almas tremendo de pavor, como corpos sacudidos de maleita. Junto de mim um matuto de Quitimbu tinha os olhos esgazeados. Cheguei mesmo a ver o suor lhe empastava a fronte morena. Uma velha traçou o xale com força, cobrindo a cabeça tôda, temendo a baforada do satanás. E ao meu lado um soldado desatou o lenço que trazia ao pescoço, como se a coisa lhe abafasse a respiração. E, voltando-se para um companheiro, avisou que ia tomar uma “bicada” pois o cheiro de enxofre estava lhe sufocando a garganta. Depois, Frei Damião baixou os braços, serenou a voz. Nunca, na minha vida, vi silêncio maior. A praça parada, o povo de lábios chumbados, os olhos fitos no frade (…) então o frade rezou. E a multidão respondeu, contrita e imóvel, como se, ao invés de milhares de vozes ali estivesse apenas uma só pessoa, postada diante do pregador famoso, na hora do juízo final, prestando contas ao Altíssimo.”


Trecho de Frei Damião – O Missionário dos Sertões livro lançado em 1953, escrito pelo poeta Luis Cristovão dos Santos. Mostra a vida e trajetória de Frei Damião pelo nordeste brasileiro.


Luís Cristovão dos Santos (Pesqueira, 25 de dezembro de 1916 — Recife, 30 de junho de 1997) foi um sociólogo, antropólogo, folclorista, cronista, escritor, promotor público e jornalista brasileiro. Também era conhecido pelos pseudônimos Ziul e Pajeú.

Estudou em Pesqueira e no Recife e concluiu o curso de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, em 1944. Funcionário Público Federal e Estadual, foi promotor de Justiça em diversas comarcas do sertão pernambucano. Diretor do jornal Gazeta do Pajeú durante a década de 1950, foi candidato a Deputado Estadual pela UDN – União Democrática Nacional em 1947 e após obter 1339 votos ficou como suplente, também saiu candidato a vice-prefeito da cidade de Arcoverde em 1955 na chapa de Antônio Napoleão, participou ativamente na história cultural e política de Pernambuco, lutando por seus direitos e defendendo o Estado. Foi Chefe do Departamento Criminal do Estado de Pernambuco de 1976 a 1986. Devido a morte prematura de um filho, aposentou-se como advogado de ofício segundo a OAB, Ordem dos Advogados do Brasil.

Escritor desde adolescente, Luís Cristóvão dos Santos também foi jornalista (A Voz do Sertão, Gazeta do Pajeú, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio), colaborador do Suplemento Cultural do Diário Oficial do estado de Pernambuco e em vários outros jornais do país, dentre muitos outros trabalhos publicados, contribuiu com muitos trabalhos na imprensa nacional e italiana.

Livros publicados:

Hino ao Sertão (1937)
Adolescência (1950)
Bilhetes do Sertão (1950)
Padre Cottart – Um vigário do Pajeú (1953)
Carlos Frederico Xavier de Brito – O Bandeirante da Goiaba (1953)
Frei Damião – O Missionário dos Sertões (1953)
Caminhos do Pajeú (1955)
Brasil de Chapéu de Couro (1956)
Caminhos do Sertão (1970)
Chão de Infância (1983)
Paisagem Humana do Pajeú (inacabada)

Mais sobre Luís Cristovão dos Santos, acessando a Wikipedia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Passagem de Lampião por Custódia




Quando esse fato ocorreu, Custódia ainda era uma vila pertencente a atual Sertânia, antiga Alagoa de Baixo. Lugar aconchegante e simpático, de uma gente bastante ordeira, dedicada ao comércio, a agricultura de subsistência e criação de bode.

É uma das cidades sertanejas que mais têm se destacado como lugar de paz, mesmo quando o restante da região sofre com atormentadas encrencas de famílias, que levam muitos à morte. Em Custódia, mesmo com os problemas que lhe são pertinentes por ser uma cidade igual às outras em qualquer parte do Brasil, o sossego reina.

O dia vinha amanhecendo – 11.02.1925 – como outro qualquer. Mas quem ia abrindo a janela ou a porta de casa ia tendo uma grande surpresa ao se deparar com um grupo de cangaceiros em plena praça. Uns sentados no chão, outros escorados nas árvores, na maior tranqüilidade que se possa imaginar. Quem vinha passando para ir ao açougue comprar carne ou verdura apressava o passo com receio que pudesse acontecer ao dar de cara com Lampião e seus quarenta cabras.

Nos arredores que dão acesso as estradas da vila encontravam-se pequenos grupos de três ou quatro cangaceiros para dar segurança aos que entraram na rua principal.Essa tranqüilidade dos cangaceiros devia-se a Lampião estar informado, misteriosamente, não se sabe como, que os praças do destacamento local haviam fugido logo antes do amanhecer, na chegada dos visitantes, avisados por alguém. Ficaram apenas dois, que naquela noite não estava dormindo no quartel, e sim em suas residências. Eram eles, João de Paula e Pedro Soares. Esse último era um negro apelidado de Capuxu.

As autoridades do campo da política também haviam fugido sem tomar nenhuma medida. Eram os senhores Ernesto Queiroz e Dr. Tenório. As poucos as pessoas foram se chegando e conversando com os cangaceiros, a meninada com toda sua curiosidade fazendo mil e umas perguntas e eles respondendo, contando histórias para impressionar os presentes que ima se aglomerando mais e mais a cada instante. Quando a cidade já estava totalmente acordada os cangaceiros se espalharam em turmas e foram para as bodegas fazer compras, beber cachaça, e tudo era pago corretamente.

Lampião, acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, e de seus cabras Luiz Pedro, Félix da Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Petro, Chumbinho, Sabino, Sabiá, André e Jurema se dirigiram para os maiores comerciantes do lugar, Zé Moura e Zé Rouxinol, deixou claro que aquelas passagem por ali era apenas para aquisição de munição, mas casa não tivesse a munição aceitava o dinheiro para comprar posteriormente. Em toda casa ou pessoas que encontravam e pediam dinheiro, explicava o Rei do Cangaço:

“-Arrepare não a gente ta pedindo assim. É porque o governo num dêxa nóis trabaiá”.

Ao chegarem numa casa encontraram o soldado Capuxu e pediram a arma.

“-Só eu indo buscar no quarté”.

Respondeu, sem titubear, o milico.

Lampião disse:“- Se tivesse mais macacos com você, era capaz de brigar com meus meninos?”

Como se diz aqui no sertão, a resposta foi em cima da fivela.

“- Sim. Cumpriria meu dever até a morte”.

E acrescentou:

“- Se estivesse num grupo de cangaceiros também faria a mesma coisa”.

Lampião sorriu e mandou o soldado ir embora sem constrangimento. Assim que o militar retirou-se, o chefe dos cangaceiros virou-se para seus cabras e disse:

“- Home desse tipo tem que ficar vivo para tirar raça de gente valente”.

Enquanto Lampião circulava pela vila conversando com os comerciantes e pessoas influentes do lugar, o restante da cabroeira, pelas bodegas, no meio da praça ou onde estivessem, eram alvo de admiração de muita gente. Aqui e acolá alguém pedia para dançarem um pouco de xaxado, e dançavam com satisfação. Alguns rapazes e meninos procuravam imitá-los arrastando o pé no ritmo da “dança de cabra macho”.

Ao atravessar a rua encontrou Valdevino Alfaiate abrindo sua alfaiataria. Cumprimentou e pediu para olhar o mostruário. Enquanto olhava os tecidos o mestre da tesoura perguntou:

“- Lampião, é verdade que esses homens são muito valentes?”

Rindo, respondeu:

“- Home, qui us cabras são atrevidos, lá isso são. Mas comigo eles já sabem como são as comidas…I têm que comê sem inguiá”.

Agradou-se de um certo brim e perguntou ao alfaiate se seria possível confeccionar um terno para entregar ainda naquele dia, puxando até a boca da noite. Respondeu que sim. Em tom de voz bastante calma e branda, Lampião teve o cuidado de dizer:

“- Se você acha que fazendo esse trabalho pra mim, pode causar problemas pra sua vida, então não faça. Não tem problema nenhum”.

O profissional disse apenas que faria aquele terno com o maior prazer e iria, a partir daquele momento, mobilizar toda a sua equipe para entregar na hora desejada. Foram tiradas as medidas e puseram mãos a obra.

Saiu da alfaiataria e rumou com seu grupo para a mercearia de Jovino Costa Leão, onde estava outros cangaceiros bebericando e cantando, ritmando com palmas. Lampião dançou um dos passos de xaxado para umas moças que estavam olhando de longe.

Agora se dirigia para a farmácia quando encontrou o coletor José Guilherme, que a partir desse momento andaram todo tempo juntos, fazendo as visitas.

Na farmácia, pertencente ao farmacêutico Joaquim Pereira da Silva, comprou mercúrio, gases, comprimidos Bayer, pagou e pôs o pacote das comprar no bornal. Pediu ao mesmo que verificasse uns dois cangaceiros que já poucos dias foram feridos num tiroteio acontecido em Cachoeira dos Galdinos, contra volantes de Betânia e Nazaré. Os ferimentos não eram graves. Vinham tratando até ali com casca, raízes e folhas, mas se agora estavam numa farmácia, nada como um especialista. Joaquim justificou que para cuidar de ferimentos, seu amigo e também farmacêutico, era mais preparado, e assim, chamou o colega, que tinha o nome de Manoel Cristovão dos Santos. Este demonstrou muita habilidade no que fazia. Cuidou dos ferimentos dos cangaceiros com muita maestria.

Lampião, que a tudo assistia, ficou admirado com a presteza, atenção e, sobretudo, com a aptidão em tratamentos desta natureza que o jovem Manoel demonstrava, que de imediato convidou a ingressar no cangaço, para ser o médico oficial do seu grupo.

A resposta foi negativa, mas mesmo assim, agradou mais uma vez ao Rei do Cangaço:

“- Lampião, hoje tenho família pra cuidar. Mas toda vez que precisar de mim pode me procurar. Se for o caso, pode mandar um dos seus meninos me avisar que irei na hora”.

Sempre acompanhado, Lampião chega agora à residência de um cidadão chamado Zé de Moura, cumprimentou toda sua família gentilmente, comeu uns doces e sentou-se numa espreguiçadeira na calçada. Disse bonachão:

“- Ô Zé, tu vive dizendo que eu num entro em Custódia, qui si eu vim aqui, morro”.

Antes do trêmulo pai de família dizer uma palavra, ouviu o complemento:

“- Deixe de ser besta, Home. Agora tô eu aqui na tua espreguiçadeira, na tua calçada…”.

Após uns quarentas minutos conversando a vizinhança e curiosos que vinham lhe visitar e prosear, viu passando uma pessoa que disseram ser o telegrafista. De fato, era o agente do telégrafo Kepler Lafaiete. Lampião chamou o rapaz e foram todos para o posto e enviaram uns telegramas para o Governador do Estado, Sérgio Loreto, com uma série desaforos, chamando o chefe do Estado de covarde e que mandasse o chefe do birô dando ordens, empurrando os soldados no fogo. Interessante, esse telegrama foi a única coisa que Lampião não pagou quando esteve em Custódia. Disse debochadamente ao telegrafista:

“- Não vou pagar esse telegrama porque o telégrafo é do governo. Além do mais estou enviando para o próprio governo. Se eu pagar estou roubando eu mesmo”.

Todos que estavam ai riram da caçoada do Comandante das Caatingas.

A noite vinha chegando e a maioria do bando, com Lampião à frente, chegaram na casa do comerciante Zé Rouxinol. Como fora combinado previamente, um farto jantar foi servido, com os cangaceiros se revezando na mesa com os que estavam montando guarda.

Já estava dando horas da noite quando Lampião chegou à alfaiataria e o Valdevino estava sentado em sua confortável cadeira aguardando seu famoso cliente. Este chegou, verificou a roupa, gostou. Não queria experimentar tirando o que estava vestindo. Abriu o bornal e tirou uma nota alta e pagou conforme combinado.

“- Lampião, pra mim o trabalho só é completo quando o freguês testa”, disse o alfaiate.

Lampião não contou conversa. Foi na camarinha, se desequipou todo e vestiu a roupa nova:

“- Está ótima!”.

Disse Lampião abrindo um sorriso. Foi motivo de alegria também para o mestre.

Despediram-se.

Em seguida o alfaiate fechou seu estabelecimento e foi apressadamente pra casa.

Quando os cangaceiros foram beber nas bodegas e mercearias, bater pernas pelas calçadas, conversar com as pessoas, até a madrugada chegar.

Quando Custódia dormiu, os cangaceiros desapareceram dentro das caatingas.

Trecho retirado do livro LAMPIÃO nem herói nem bandido A História, de Anildomá Willians de Souza, lançado em 2007 pelo escritor que é membro da Academia Serra-talhadense de Letras e da União Brasileira de Escritores/PE.

Contato do autor:
Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 – Cohab
56.909-110
Serra Talhada-PE
Telefone: (87) 3831-2041
E-mail: cabrasdelampiao@bol.com.br

Passagem de Lampião por Custódia




Quando esse fato ocorreu, Custódia ainda era uma vila pertencente a atual Sertânia, antiga Alagoa de Baixo. Lugar aconchegante e simpático, de uma gente bastante ordeira, dedicada ao comércio, a agricultura de subsistência e criação de bode.

É uma das cidades sertanejas que mais têm se destacado como lugar de paz, mesmo quando o restante da região sofre com atormentadas encrencas de famílias, que levam muitos à morte. Em Custódia, mesmo com os problemas que lhe são pertinentes por ser uma cidade igual às outras em qualquer parte do Brasil, o sossego reina.

O dia vinha amanhecendo – 11.02.1925 – como outro qualquer. Mas quem ia abrindo a janela ou a porta de casa ia tendo uma grande surpresa ao se deparar com um grupo de cangaceiros em plena praça. Uns sentados no chão, outros escorados nas árvores, na maior tranqüilidade que se possa imaginar. Quem vinha passando para ir ao açougue comprar carne ou verdura apressava o passo com receio que pudesse acontecer ao dar de cara com Lampião e seus quarenta cabras.

Nos arredores que dão acesso as estradas da vila encontravam-se pequenos grupos de três ou quatro cangaceiros para dar segurança aos que entraram na rua principal.Essa tranqüilidade dos cangaceiros devia-se a Lampião estar informado, misteriosamente, não se sabe como, que os praças do destacamento local haviam fugido logo antes do amanhecer, na chegada dos visitantes, avisados por alguém. Ficaram apenas dois, que naquela noite não estava dormindo no quartel, e sim em suas residências. Eram eles, João de Paula e Pedro Soares. Esse último era um negro apelidado de Capuxu.

As autoridades do campo da política também haviam fugido sem tomar nenhuma medida. Eram os senhores Ernesto Queiroz e Dr. Tenório. As poucos as pessoas foram se chegando e conversando com os cangaceiros, a meninada com toda sua curiosidade fazendo mil e umas perguntas e eles respondendo, contando histórias para impressionar os presentes que ima se aglomerando mais e mais a cada instante. Quando a cidade já estava totalmente acordada os cangaceiros se espalharam em turmas e foram para as bodegas fazer compras, beber cachaça, e tudo era pago corretamente.

Lampião, acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, e de seus cabras Luiz Pedro, Félix da Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Petro, Chumbinho, Sabino, Sabiá, André e Jurema se dirigiram para os maiores comerciantes do lugar, Zé Moura e Zé Rouxinol, deixou claro que aquelas passagem por ali era apenas para aquisição de munição, mas casa não tivesse a munição aceitava o dinheiro para comprar posteriormente. Em toda casa ou pessoas que encontravam e pediam dinheiro, explicava o Rei do Cangaço:

“-Arrepare não a gente ta pedindo assim. É porque o governo num dêxa nóis trabaiá”.

Ao chegarem numa casa encontraram o soldado Capuxu e pediram a arma.

“-Só eu indo buscar no quarté”.

Respondeu, sem titubear, o milico.

Lampião disse:“- Se tivesse mais macacos com você, era capaz de brigar com meus meninos?”

Como se diz aqui no sertão, a resposta foi em cima da fivela.

“- Sim. Cumpriria meu dever até a morte”.

E acrescentou:

“- Se estivesse num grupo de cangaceiros também faria a mesma coisa”.

Lampião sorriu e mandou o soldado ir embora sem constrangimento. Assim que o militar retirou-se, o chefe dos cangaceiros virou-se para seus cabras e disse:

“- Home desse tipo tem que ficar vivo para tirar raça de gente valente”.

Enquanto Lampião circulava pela vila conversando com os comerciantes e pessoas influentes do lugar, o restante da cabroeira, pelas bodegas, no meio da praça ou onde estivessem, eram alvo de admiração de muita gente. Aqui e acolá alguém pedia para dançarem um pouco de xaxado, e dançavam com satisfação. Alguns rapazes e meninos procuravam imitá-los arrastando o pé no ritmo da “dança de cabra macho”.

Ao atravessar a rua encontrou Valdevino Alfaiate abrindo sua alfaiataria. Cumprimentou e pediu para olhar o mostruário. Enquanto olhava os tecidos o mestre da tesoura perguntou:

“- Lampião, é verdade que esses homens são muito valentes?”

Rindo, respondeu:

“- Home, qui us cabras são atrevidos, lá isso são. Mas comigo eles já sabem como são as comidas…I têm que comê sem inguiá”.

Agradou-se de um certo brim e perguntou ao alfaiate se seria possível confeccionar um terno para entregar ainda naquele dia, puxando até a boca da noite. Respondeu que sim. Em tom de voz bastante calma e branda, Lampião teve o cuidado de dizer:

“- Se você acha que fazendo esse trabalho pra mim, pode causar problemas pra sua vida, então não faça. Não tem problema nenhum”.

O profissional disse apenas que faria aquele terno com o maior prazer e iria, a partir daquele momento, mobilizar toda a sua equipe para entregar na hora desejada. Foram tiradas as medidas e puseram mãos a obra.

Saiu da alfaiataria e rumou com seu grupo para a mercearia de Jovino Costa Leão, onde estava outros cangaceiros bebericando e cantando, ritmando com palmas. Lampião dançou um dos passos de xaxado para umas moças que estavam olhando de longe.

Agora se dirigia para a farmácia quando encontrou o coletor José Guilherme, que a partir desse momento andaram todo tempo juntos, fazendo as visitas.

Na farmácia, pertencente ao farmacêutico Joaquim Pereira da Silva, comprou mercúrio, gases, comprimidos Bayer, pagou e pôs o pacote das comprar no bornal. Pediu ao mesmo que verificasse uns dois cangaceiros que já poucos dias foram feridos num tiroteio acontecido em Cachoeira dos Galdinos, contra volantes de Betânia e Nazaré. Os ferimentos não eram graves. Vinham tratando até ali com casca, raízes e folhas, mas se agora estavam numa farmácia, nada como um especialista. Joaquim justificou que para cuidar de ferimentos, seu amigo e também farmacêutico, era mais preparado, e assim, chamou o colega, que tinha o nome de Manoel Cristovão dos Santos. Este demonstrou muita habilidade no que fazia. Cuidou dos ferimentos dos cangaceiros com muita maestria.

Lampião, que a tudo assistia, ficou admirado com a presteza, atenção e, sobretudo, com a aptidão em tratamentos desta natureza que o jovem Manoel demonstrava, que de imediato convidou a ingressar no cangaço, para ser o médico oficial do seu grupo.

A resposta foi negativa, mas mesmo assim, agradou mais uma vez ao Rei do Cangaço:

“- Lampião, hoje tenho família pra cuidar. Mas toda vez que precisar de mim pode me procurar. Se for o caso, pode mandar um dos seus meninos me avisar que irei na hora”.

Sempre acompanhado, Lampião chega agora à residência de um cidadão chamado Zé de Moura, cumprimentou toda sua família gentilmente, comeu uns doces e sentou-se numa espreguiçadeira na calçada. Disse bonachão:

“- Ô Zé, tu vive dizendo que eu num entro em Custódia, qui si eu vim aqui, morro”.

Antes do trêmulo pai de família dizer uma palavra, ouviu o complemento:

“- Deixe de ser besta, Home. Agora tô eu aqui na tua espreguiçadeira, na tua calçada…”.

Após uns quarentas minutos conversando a vizinhança e curiosos que vinham lhe visitar e prosear, viu passando uma pessoa que disseram ser o telegrafista. De fato, era o agente do telégrafo Kepler Lafaiete. Lampião chamou o rapaz e foram todos para o posto e enviaram uns telegramas para o Governador do Estado, Sérgio Loreto, com uma série desaforos, chamando o chefe do Estado de covarde e que mandasse o chefe do birô dando ordens, empurrando os soldados no fogo. Interessante, esse telegrama foi a única coisa que Lampião não pagou quando esteve em Custódia. Disse debochadamente ao telegrafista:

“- Não vou pagar esse telegrama porque o telégrafo é do governo. Além do mais estou enviando para o próprio governo. Se eu pagar estou roubando eu mesmo”.

Todos que estavam ai riram da caçoada do Comandante das Caatingas.

A noite vinha chegando e a maioria do bando, com Lampião à frente, chegaram na casa do comerciante Zé Rouxinol. Como fora combinado previamente, um farto jantar foi servido, com os cangaceiros se revezando na mesa com os que estavam montando guarda.

Já estava dando horas da noite quando Lampião chegou à alfaiataria e o Valdevino estava sentado em sua confortável cadeira aguardando seu famoso cliente. Este chegou, verificou a roupa, gostou. Não queria experimentar tirando o que estava vestindo. Abriu o bornal e tirou uma nota alta e pagou conforme combinado.

“- Lampião, pra mim o trabalho só é completo quando o freguês testa”, disse o alfaiate.

Lampião não contou conversa. Foi na camarinha, se desequipou todo e vestiu a roupa nova:

“- Está ótima!”.

Disse Lampião abrindo um sorriso. Foi motivo de alegria também para o mestre.

Despediram-se.

Em seguida o alfaiate fechou seu estabelecimento e foi apressadamente pra casa.

Quando os cangaceiros foram beber nas bodegas e mercearias, bater pernas pelas calçadas, conversar com as pessoas, até a madrugada chegar.

Quando Custódia dormiu, os cangaceiros desapareceram dentro das caatingas.

Trecho retirado do livro LAMPIÃO nem herói nem bandido A História, de Anildomá Willians de Souza, lançado em 2007 pelo escritor que é membro da Academia Serra-talhadense de Letras e da União Brasileira de Escritores/PE.

Contato do autor:
Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 – Cohab
56.909-110
Serra Talhada-PE
Telefone: (87) 3831-2041
E-mail: cabrasdelampiao@bol.com.br

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Livro Salão de Sombras



No livro “Salão de Sombras” do escritor, músico, compositor, poeta e líder cultural sertaniense Waldemar Cordeiro, nosso município é citado no verso “Paisagem do Sertão“, onde o sertão é distribuído em: Ipanema, Moxotó, Pajeú, Baixa Verde, São Francisco e Chapéu de Couro. Logo abaixo o trecho sobre Custódia:


II

Custódia. Nos grotões onde a água mina,
nos contra-fortes de Jabitacá,
destila como um filtro de água fina
e decantada fonte de Sabá.


O livro foi lançado em maio de 1992 pelo Conselho Municipal de Cultura, da Secretaria de Educação e Cultura da Cidade do Recife.



Estudantes do General no livro Cem Poetas



O Movimento pela Edição, Divulgação/Distribuição e Consumo de Livros Pernambucanos, o Litera PE, lança a antológica coletânea Cem poetas Sem livros – Inéditos, reunindo 100 poemas da autoria de igual número de poetas e poetisas. O recital poético e coquetel de lançamento acontece no Instituto Maximiano Campos (IMC), na rua do Chacon, 335, Casa Forte (na rua onde Dr. Miguel Arraes e Ariano Suassuna moraram recentemente). A cerimônia inicia às 19h da quinta-feira (09.07) e promete varar a noite com sarau poético participativo. A edição do livro é assinada pelo jornalista e poeta Cristiano Jerônimo (que acumula a coordenação, edição, designer, diagramação e produção ao lado da jornalista Meri Rezende). A impressão é um incentivo da CCS Gráfica e Editora, sensibilizada com a natureza do projeto. Tem o apoio cultural da Fundaj (Diretoria de Cultura) e co-patrocínio do Instituto Maximiano Campos (IMC).


Pela primeira vez na literatura de Pernambuco se reúnem, em livro, 100 poetas e poetisas que produzem há poucos anos ou há várias décadas, mas que nunca editaram um livro sequer. Ou porque não sabiam como, ou porque, ao saber, não tinham como produzir e custear as despesas gráficas e de lançamento. O Movimento Litera PE acredita no estímulo à escrita com repercussões na promoção à leitura. Por isso um livro-retrato do que se escreve atualmente, em termos de poesias, no nosso Estado. Algo de excelente qualidade que pode ser trabalhado na rede de ensino, em tom de contemporaneidade e interação entre autores, alunos e professores, além da comunidade extra-escolar.

“É muito rico. Se brincar, vamos fazer o volume dois, com cem outros inéditos, além de outra centena de publicados, entre independentes e consagrados. A matéria-prima é vasta em nosso estado. Só faltam alguns ajustes e uns bons empurrões para a frente”, brinca Cristiano Jerônimo.

Mais de 120 autores(as) se inscreveram, com cinco poemas cada um, para participar da antologia. O Conselho Editorial – formado por Cida Pedrosa, poetisa e editora do www.interpoetica.com; a psicóloga, poetisa e jornalista Lourdes Coelho; o radialista e escritor Fernando Farias; e o jornalista e poeta Cristiano Jerônimo – ficou a cargo de selecionar os 100 participantes. O acadêmico pernambucano e advogado Antônio Campos, através do IMC, apadrinhou o projeto num gesto de compromisso também com a nova produção literária.

Ps. do escritor Cristiano Jerônimo: “Segue abaixo, a newsletter do lançamento do livro Cem poetas Sem livros, que conta com duas poetisas custodienses, alunas do Colégio Estadual General Joaquim Inácio: Daniela Bezerra e Joyce Amaral. Parabéns às duas e à escola."

Escritor Mario Vargas Llosa faz referência a Custódia


Mario Vargas Llosa (nascido Jorge Mario Vargas Llosa) (Arequipa, Peru, 28 de março de 1936), é um dos maiores escritores de língua espanhola, reconhecido, em nível mundial, como romancista, jornalista, ensaísta e político. Em 1981 publicou A Guerra do Fim do Mundo, sobre a Guerra de Canudos, que dedica ao escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de Os Sertões.

Em A Guerra do Fim do Mundo, em suas páginas, o escritor faz várias referência ao “Povo de Custódia”, o material está disponível no Google Books, no seguinte link:



Enviado por José Soares de Melo

Custódia em livro de Ariano Suassuna



Em “O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”(1971) do escritor paraibano Ariano Suassuna, nosso município é citado na página 100 do livreto, com as seguintes palavras:


“Naquela noite, ceamos canja de rolinhas, pato assado, carne-de-sol com farofa, jerimum com leite, e, coroando tudo, uma umbuzada. Depois do jantar, sentados em espreguiçadeiras no copiar da “Carnaúba”, ficamos a conversar coisas vagas, enquanto as estrelas piscavam em cima, e lá longe, para os lados da Vila de Custódia, relâmpagos cortavam o céu. A terra e o fresco ar noturno cheiravam a mato e a chuva, e foi ali que eu, tendo como pretexto a caçada da tarde, puxei a conversa para esse assunto. Narrei todos os meus insucessos, exagerando e mesmo inventarìdo o que podia. Por fim, a modo de conclusão, lancei a frase que tinha preparado como centro do meu plano.”

O romance é inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilômetros do Recife, onde uma seita, em 1836, tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião – transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na África (Batalha de Alcácer-Quibir): sob domínio espanhol, os portugueses sonhavam com a volta do rei que restituiria a nação tomada à força. O sentimento sebastianista ainda hoje é lembrado em Pernambuco, durante a Cavalgada da Pedra do Reino, por manifestação popular que acontece anualmente no local onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei.

Suassuna iniciou o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, seu nome completo, em 1958 para concluí-lo somente uma década depois, quando o autor percebeu o que o levou a escrever o romance: a morte do pai, quando tinha apenas três anos de idade – tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna, e a redenção do seu “rei” – uma reação contra o conceito vigente na época, segundo o qual as forças rurais eram o obscurantismo (o mal) e o urbano o progresso (o bem).

A história, baseada na cultura popular nordestina e inspirada na literatura de cordel, nos repentes e nas emboladas, é dedicada ao pai do autor e a mais doze “cavaleiros”, entre eles Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro e José Lins do Rego.

Material enviado por: José Soares de Melo

Nertan Macedo cita Custódia em verso


Verso coletado por Nertan Macedo, publicado em 1950 no Rio de Janeiro:

Tenho casa, tenho fome,
bolandeira no Salgueiro,
na serra da Cana Brava
coronel é coiteiro,
na serra do Logradouro
o compadre é fazendeiro,

nas furnas da Serra Negra
viro bicho maloqueiro,
no Limão, no Canindé
tenho cavalo estradeiro,
suspiro pelo descanso
no viver de cangaceiro,
quero moça de janela
em Custódia e Tabuleiro.

Nertan Macêdo (Crato, 20 de maio de 1929) é um escritor brasileiro. É filho de Júlio Teixeira de Alcântara e Corina Macedo de Alcântara e irmão de Denizard Macêdo, escritor e jornalista, redator do Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e O Jornal. Ocupou a cadeira número 17 do Instituto Cultural do Cariri.

Matéria enviada por José Soares de Melo

Trindade Geográfica por Odete Andrada






Três cidades para se querer bem,
ao mesmo tempo,
é emoção demais
contida em meu ser,
com toda força afetiva:

uma, que me viu nascer – Custódia;
a outra foi berço da infância – Amaraji;
esta, completou o ciclo
da minha história de vida – Pesqueira

ODETE DE ANDRADA ALVES

Extraído do Livro ” Do Âmago da Memória”, página 245.

 
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