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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Traços e Retraços - por José Carneiro


Por José Carneiro

Aqui vão alguns traços e retraços do tempo da infância e adolescência vividos na minha terra natal. São vozes do passado ecoando no presente. São lembranças antigas, agora revividas. São vozes e lembranças de ontem, hoje repassadas de saudade. São auroras e crepúsculos a que assisti da janela do meu mundo interior. São, enfim, imagens de um tempo encantador, que se foi e não volta mais, mas permanece na minha memória e no fundo do meu coração.

Nasci em Custódia nos idos de 1929. Já lá se vão oitenta e duas primaveras! Nela vivi, intensamente, até 1955, quando parti em busca de outros mundos. Agora, depois de tanto tempo, por obra e graça da força telúrica, eis-me de volta ao meu lugar. Doce reencontro!

Dos preparativos e realização da primeira comunhão, sob o ministério do padre João Amâncio, guardo uma das maiores emoções de minha vida, conservando, no fundo da alma, a magnitude daquela bênção sacramental. Padre Amâncio, como era chamado, é personagem completamente esquecida na história de Custódia. Era um homem corpulento, de feições grosseiras, sisudo por natureza, mas exemplar sacerdote e de uma fé inabalável.

A minha primeira professora, Veneranda Goes, tratada carinhosamente por Sinhá Goes, era uma mestra inata e dedicada ao magistério. Sentia-se orgulhosa em dizer que foi minha primeira professora e responsável pela minha alfabetização. Alta, vistosa, esbelta, andar garboso e, sobretudo, elegante no trajar. Foi uma das mais bonitas vitalinas da cidade. Lamentava não ter casado e disso não se conformava. Eu gostava muito dela e fazia questão de demonstrar meu afeto e gratidão.

A escola foi o centro da minha infância. Gostava verdadeiramente da vida escolar e das atividades letivas. Não obstante, nunca fui um aluno estudioso, embora qualificado acima da média da classe. Era mais afeito a leituras não didáticas e inclinado à literatura, escrevendo e declamando poesias. Lembro-me de algumas professoras primárias, destacando: Jucy, de Vitória de Santo Antão, baixinha, rechonchuda, graciosa, alegre e simpática. Ensinava bem; Irma, do Recife, alta, magra, morena, feiosa, de pouca conversa e estrábica. De uma austeridade fora do comum. Tinha como dama de companhia sua prima Lurdes, de linguajar, trejeitos e comportamento fora dos padrões do tempo e do nosso meio social; Ivete Matos, de Pesqueira, alta, magricela, morena, calada, carrancuda e indiferente a tu do e a todos. Teve hospedagem na casa de Dona Anita Remígio. Num dos magníficos dramas de Padre Duarte, fez dueto com Nildo Nino numa bela canção matuta, que falava numa casa bonitinha lá no alto dos oiteiros; e, por fim, Corsina, de Pesqueira, de todas a mais formosa. Alta, alva de olhos azuis, elegante e com características aristocráticas. Intelectualmente preparada e de educação esmerada. Usava óculos. Caiu na simpatia de todos. Era tia do Desembargador Fausto Freitas. Também me lembro de alguns colegas de classe e contemporâneos, mencionando, entre muitos: Milton Aleixo, filho de Heleno Aleixo e Dona Ernestina, minha tia pelo lado materno, magro, rosto anguloso, nariz adunco, canhoto, feioso mas simpático, inteligente e dos primeiros da classe. Foi o companheiro de infância com quem mais convivi, pois, além de primo, tínhamos muita coisa em comum. De forma inusitada deixou Custódia e partiu para São

Paulo, onde vive em completo anonimato, sem dar notícia a ninguém deste mundo;

José neto, Noêmia e Joany Pereira, filhos de Joaquim Pereira e Dona Corina, formavam um trio harmonioso em comportamento, educação e formação doméstica. Zé Neto foi outro companheiro com quem sempre mantive um vínculo forte de amizade, apesar do seu exótico temperamento, e, quanto a Joany, há muito a se contar; Ernesto Queiroz Júnior (Ernestinho), José Elídio de Queiroz (Zito), filhos de Ernesto Queiroz e Dona Maria Josefina, sempre se destacaram dos demais, não tomando parte direta na vida simplória da meninada da fuzarca; Francy Moura, irmã de Maurina e Elvira Moura, filha de seu Nequinho Moura, a finura em pessoa. Calma, modesta, simpática, era a mais inteligente da classe, disputando o primeiro lugar com Joany Pereira; Elizeu e Osmaldo, filhos de José Marinho e Dona Olívia, eram de comportamentos arredios, sem nenhuma ligação com os modos e costumes da época, talvez por conta da rigidez educacional adotada pelo pai, Zé Marinho, como era conhecido, irmão de Né Marinho. Era um homem retraído, tendo se mudado de Custódia repentinamente, por razões ignoradas pela população, não se sabendo do seu paradeiro; Valdemar Pires, filho de João Pires e de Dona Candóia, era um menino que fugia à regra geral, notadamente por não se misturar aos demais; José Lopes e Zefinha Lopes, filhos de Manoel Lopes e Dona Isaque Lopes, modestos e reservados; Zélia Sá, filha de Zé Major e Dona Firmina, irmã de Socorro e Nizinha Sá, morena, prestativa, a bondade e simplicidade em pessoa; Cacilda Andrade, filha de Dona Olindina, morena, farta cabeleira, olhos vivos e brilhantes, de hábitos simples e serenos; e, para encerrar, Odete Ferreira, filha de Chico Ferreira e Dona Loló, irmã de Ceci, Eliete e Netinha, graciosa, risonha e calma, parecia que estava fora do mundo. No mais, fiz o que era comum à maioria dos meninos da mesma faixa etária naquela época: soltei balão, empinei papagaio de papel, joguei pião e castanha, cacei passarinho com baladeira, brinquei de peia queimada, fiz açudes nas enxurradas, esquipei em cavalo de pau, etc.... etc....etc...., mas, para ser franco, o que mais eu gostava era de tomar banho de chuva com o bando em alvoroçada disparada.

Da minha terna cidade
Onde vivi toda infância
Eu guardo ainda a fragrância
Do verdor da mocidade
Hoje lembro com saudade
Dos sonhos que sonhei nela
Naquela quadra tão bela
Que trago sempre presente
De Custódia vivo ausente
Mas nunca me esqueci dela.

A mocidade vivi toda ela em Custódia e, excetuando a política, me envolvi, emocionalmente, de corpo e alma, em todas as manifestações artísticas, sociais e populares, evidenciando: representações teatrais, serenatas nas noites de luar, namoradas sem conta, danças a valer, folias carnavalescas, festejos de toda ordem, enfim, tudo aquilo que era bom e proporcionava alegria e prazer. Mas, do que mais eu gostei, foi do primeiro beijo da primeira namorada. Ainda hoje sinto o gosto dele!

Saudade doce lembrança
Do tempo da mocidade
Quando tudo era alegria
Amor e felicidade
Agora no fim da vida
Como é amarga a saudade!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Poesia para Custódia-PE

Por José Carneiro


Hoje na longevidade
Das oitenta primaveras
Quero falar das quimeras
Da infância e mocidade
Naquela quadra da vida
Em minha terra vivida
Com toda vivacidade.

Custódia de antigamente
Do meu rio Moxotó
Era pra mim a melhor
Das outras tão diferente
O lugar onde nasci
Andei, falei e cresci
E vivi com sua gente.

Em Custódia, na cidade
Em Maravilha e Ingá
E na fonte do Sabá
Eu passei a mocidade 
De samambaia, Quitimbu
E do doce Tambaú
De tudo sinto saudade.

Da minha terra querida
Cenário de mil encantos
Eu lembro todos recantos
Que animavam minha vida
Alegrando o meu viver
Me dando muito prazer
Uma existência florida.

De minha infância gostosa
De muita coisa me lembro
E com ternura relembro
Daquela quadra ditosa
Onde reinava alegria
Em tudo que se fazia
Uma vida cor de rosa.

De quando fui pra escola
E senti grande emoção
Da primeira comunhão
E do meu jogo de bola
Nas animadas peladas
Com raça bem disputadas
Mas sem entradas de sola.

Não me sai do pensamento
O papagaio de papel
O meu brinquedo fiel
Bailando no firmamento
Se elevando num instante
Para longe e bem distante
Nas asas fortes do vento.

Ainda ouço o zunido
Do meu primeiro pião
Dançando na minha mão
Parecendo adormecido
Aquele som inda soa
E no meu peito ressoa
Zunindo no meu ouvido.

Sinto prazer em lembrar
Da festa de São José
Com a esquenta mulher
Zabumba de Zé Biá
Onda de Duda Ferraz
Quanta saudade me trás
Que quase me faz chorar.

E da minha mocidade?
Oh! Quanta recordação!
Onde tudo era ilusão
Uma vida sem maldade
Num mundo de fantasia
De pureza e alegria
De paz e felicidade.

No meio da caminhada
Lembro do primeiro beijo
Que no final do festejo
Eu roubei da minha amada
Naquele alegre natal
Que permanece atual
Como uma coisa sagrada.

De Cari, mulher da vida
Das putas a maioral
Todo ano, no carnaval
Botava na avenida
A troça das meretrizes
Que contentes e felizes
Esqueciam sua lida.

E não me sai da lembrança
Certa noite de São João
Quando soltei meu balão
Para o céu, como quem lança
Um olhar de despedida
À sua terra querida
Como última esperança.

Como nem tudo são flores
Neste mundo em que vivemos
Muitas vezes não podemos
Acalmar as próprias dores
Ou amargo padecer
Por não poder esquecer
Os nossos velhos amores.

Pois, no tempo que passei
Na minha terna cidade
Na quadra da mocidade
Uma moça muito amei
Minha linda namorada
De todas a mais amada
Mas com ela não casei.      

19/04/2012      

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Rio Moxotó - José Carneiro

Rio Moxotó nas imediações da cidade de Inajá
Foto: Panoramio (internet)

Composição sobre o rio Moxotó, fiz com o intuito de reparar uma injustiça, pois que, cantam o São Francisco, Pajeú, Ipojuca, Una e tantos outros, menos o Moxotó, o rio da nossa região, do qual nunca ouvi a menor referência. 



O RIO MOXOTÓ
J.Carneiro



Os rios correm pro mar
Mas o meu não chegou lá
Nem por isso ele deixou
De cumprir sua missão
Sendo fonte de beleza
De fartura e de riqueza
Nos campos onde passou
Nas quebradas do sertão.

Por isso e por muito mais
Os rios são por demais
Pelos poetas decantados
Com muito amor e paixão
Assim vou cantar o meu
Onde nasceu e correu
Nos caminhos abrasados
Pelas secas do sertão.

O Moxotó, o meu rio
Corre sereno e macio
Discreto, com pouco atalho
Nos carrascais do sertão
Das águas brota a semente
Que dá os frutos que a gente
Com o suor do trabalho
Vem a colher do seu chão.

Lá em Sertânia nasceu
E de lá ele desceu
Aqui e ali dando vau
Deslizando em rodopios
Modesto, mas altaneiro
No seu vagar rotineiro
Por cima de pedra e pau
Como caminham os rios.

Pra Custódia ele segue
Até lá ele consegue
Descer moroso e com graça
Cumprindo bem o seu fim
O de melhorar a vida
Dessa gente tão sofrida
Mostrando por onde passa
Que os rios são sempre assim.

Em Custódia começa
A sua grande promessa
De se fazer em ação
Assim fez o velho rio
Com seu açude irrigado
DNOCS, como é chamado
Enfrentando o desafio
De salvar nosso rincão.

De Custódia a Inajá
Muitas voltas ele dá
Com toda tranquilidade
No seu manso voltear
Os seus campos aguando
Nas suas margens deixando
O lodo da umidade
Pra terra fertilizar.

Depois vem Ibimirim
Antes chamada Mirim
Com seu açude gigante
O velho rio em ação
Se desmanchando em beleza
Gerando muita riqueza
Com a sua água abundante
Afugentando o verão.

E por fim Tacaratu
Da tribo Pancararu
A serra de muitas pontas
E dos índios um aprisco
Onde o rio perde o rumo
Pois seu curso sai do prumo
E devagar, quase às tontas
Vai cair no São Francisco.

Ao meu rio, com fervor
Este canto de louvor
Na vegetação agreste
Das catingas do sertão
Até onde mais produz
No açude Poço da Cruz
Dos maiores do nordeste
Sua alma, seu coração.

José Carneiro - Novo Colaborador



ESTOU DE VOLTA!

Paulo Joaquim Peterson Pereira (nome em harmonioso decassílabo), com certa cerimônia e com ares de fidalguia, convida-me para colaborar no seu prestigiado site.

Convite aceito mais como ordem do que pedido, por me considerar na obrigação de cumprir à risca.

Por vezes navego no seu site e confesso que nele encontro matérias dignas de registro, deleitando-me, ora com passagens de pessoas e coisas da nossa terra, ora com produções intelectuais de valor literário. Sem tirar o mérito de outras contribuições , não resisto o desejo de destacar as saborosas produções de José Melo, José Neto, Fernando José, Jaílson Vital, Jorge Remígio e Jussara Burgos.

Custódia é e sempre foi uma cidade diferente das outras, com características que só ela possui. Alegre e festiva pela própria natureza. Tem vida independente e é senhora de si mesma, econômica e financeiramente. Rica, muito rica, no seu território folclórico e fértil no campo da cultura. Deu dois homens geniais: Duda Ferraz e Zé Prefeito; cinco juízes de direito: José Carneiro, Antônio Medeiros, Adalberto Lopes, José Rabelo e uma mulher cujo nome me foge da memória; autores de livros publicados: Ernesto Queiroz Júnior, Maria José do Amaral, Sevy Oliveira e Fernando Florêncio; o historiador Jovenildo Pinheiro, além de padres, médicos, advogados, engenheiro,dentistas, bacharéis de várias áreas, professores e profissionais outros. Como se vê, Custódia é uma cidade fascinante e florescente!

Nasci em Custódia e nela passei a infância e a adolescência, vivendo o tempo mais alegre e feliz de toda minha vida. Dela, pois, eu guardo as mais doces e agradáveis recordações.

Agora, depois de tanto tempo, com a convocação de Paulo Pereira, filho de um velho amigo meu, que terei muito prazer em conhecer, estou de volta, com todo entusiasmo e profunda emoção. Desejo fazer parte dessa plêiade que movimenta a vida social e cultural de Custódia. Sim, Paulo, vou voltar, certo de que, menos que um colaborador, serei um agraciado pela feliz oportunidade de voltar e, sobretudo, reencontrar a terra que me viu nascer e que eu tanto amei. Enfim, estarei cumprindo um dever e fazendo o que mais gosto: comunicando-me.

Estou de volta, sim! Ninguém esquece os caminhos da infância. Além disso, segundo José Américo, “voltar é uma forma de renascer e ninguém, se perde na volta.”

Qual uma fênix, renasço das cinzas e, de pronto, alço voo, cantando o Hino a Custódia!...


HINO A CUSTÓDIA
J.Carneiro


Salve! Custódia querida
De Pernambuco o sacrário
A cruz para o céu erguida
No alto do campanário

É toda de São José 
Seu bondoso padroeiro
Que dá tanta força e fé
A um povo hospitaleiro

Em fraterna comunhão
O povo vive feliz
Rezando com devoção
Na sua linda Matriz

Em um pequenino oiteiro
Com aura de santidade
O nosso velho cruzeiro
Abençoando a cidade

Do Sabá a água pura
Tão pura e tão cristalina
Como a que lá na altura
Se forma da chuva fina

Esquecida e desprezada
A bela fonte reclama
Do abandono relegada
Por justiça tanto clama

A serena Maravilha
Se trás no nome a beleza
Nos seus campos vê-se a trilha
Do trabalho e da riqueza

Nossa maior afeição
Ao ridente Quitimbu
Unindo no seu rincão
Moxotó e Pajeú

Neste hino, com emoção
E com toda nossa fé
Queremos de coração
Dar vivas a São José

Salve! Custódia querida
De Pernambuco o sacrário
A cruz para o céu erguida
No alto do campanário.

Recife, 11.1.2011

 
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