sábado, 21 de janeiro de 2012

Numeriano Blandino - por Fernando Florêncio




A Paróquia de São Jose, da freguesia de Custódia, passava por um momento de letargia incompreensível. Nem um vigário fixo tinha, muito embora dispusesse de um dos templos mais bonitos e imponentes da região.

Até hoje, não se conhece nenhuma Igreja com torre mais alta e exuberante que, muito embora contrastando com sua imponência, dispunha de apenas dois sinos muito pequenos, que tocados com incrível sintonia por Sebastião (sêo Mama) indicavam chamadas para a missa, novenas, enterros,, batizados… etc.

Quando menos se imaginava, eis que desembarca da “sopa” (ônibus) da Empresa Realeza, um homem muito gordo vestido com uma roupa de cor indefinida, talvez marrom, uma resultante do preto da batina com a poeira vermelha do sertão. Atravessou toda a Praça Padre Leão em direção à Igreja, sob a curiosidade de todos que estavam a “jogar conversa fora” em ambos os lados da praça. Era mais ou menos três e meia da tarde. O andar cadenciado, a cabeça erguida, o peito saliente a mala, enorme e pesada, carregada na cabeça por Sebastião “Miudin,” dava a idéia que aquele homem viera para ficar.

A notícia se espalhou como um rastilho de pólvora.

Viva!!!! Nosso padre chegou!!! São José ouviu nossas preces. Era a glória.

A arrumação da Igreja para a primeira missa do PADRE LUIZ KLUR, mexeu com todos. As toalhas mais alvas ornaram a igreja. As flores mais bonitas foram colocadas nos vasos. O cheiro das dálias, rosas, açucenas, misturados davam uma agradável sensação de limpeza. Não foram usados os tradicionais “cravos de defunto”.

Padre Luiz chegara para substituir o dedicado MONSENHOR URBANO, pároco de Sertânia, que eventualmente dava assistência à nossa paróquia.

Sêo Menino; logo na primeira missa o Padre Luiz implantou seu estilo. Era alemão e sendo alemão, diria o Mução: –Grosso que nem parede de Igreja – foi logo botando pra quebrar.

-Não admitia conversa durante a missa.
-Não admitia interrupções.
-Menino chorão? Nem Pensar. Que ficasse em casa. Ele perdoava. Implicou até com um ceguinho que pedia esmola durante a missa na porta da Igreja. A galera dizia que o padre não queria saber de concorrência.

Diante da gestão ditatorial do Padre, que angariou muitos críticos, entre eles estava Numeriano, cuja magreza e atitudes gozadoras, algumas até curiosas, faziam dele uma figura ímpar. – João Elizeu conta, que certa feita, Numeriano deu um “trupicão” numa pedra, mirou a cabeça do dedão ensanguentada, voltou, olhou para a pedra, e tascou: TÁ QUI PRA VOÇE, OHH!!! E deu uma “banana” pra pedra.

Numeriano costumava assistir a missa aos domingos, encostado na porta da entrada lateral da Igreja, situada no lado direito de quem olha para a praça.

Espirituoso, certa vez uma senhora que chegara atrasada para a missa das sete, sabedoria dos métodos rígidos do Padre Luiz e preocupada se a missa já teria começado, perguntou a Numeriano: 

– A missa já entrou?? Numeriano respondeu: Por essa porta, não!!.

Domingo de Páscoa, igreja cheia, o Padre Luiz discorria a explicação do evangelho que falava sobre a multiplicação dos pães e dos peixes..

Falava que “naquele tempo, Jesus distribuíra para dois discípulos, CINCO MIL PAES MAIS DOIS MIL PEIXES, saciando a fome de todos.

Numeriano captou a mancada que o Padre dera, invertendo as quantidades, comentou para Totinha de dona Bela:

-Ôxe,!!Qual a vantagem.?? Isso até eu faço.

Mesmo cochichado, o Padre ouviu o comentário de Numeriano. Nada disse. Apenas olhou-o por cima dos óculos, como quem diz: Me espere. Quem tem com que me pague não me deve nada.

No ano seguinte, ocorria mesma situação. O padre Luiz dizia: Naquele tempo, Jesus repartiu para cinco mil pessoas, CINCO PÃES MAIS DOIS PEIXES, saciando a fome de todo mundo. Olhou por cima dos óculos em direção a Numeriano, e lascou:

- Faz isso agora Numeriano, que eu quero ver.!!!

Numeriano nem se abalou, só respondeu.:

FAÇO SIM, COM O QUE SOBROU DO ANO PASSADO.

Fernando Florêncio
Ilhéus/BA

Em tempo: Foi no período do Padre Luiz que nossa Paróquia recebeu um novo sino e o relógio.

Bar o Ponto Certo - por Zé Melo



Indiscutivelmente o “point” mais famoso de Custódia foi o Bar Fênix, ponto de encontro da sociedade custodiense nas décadas de cinqüenta e inicio de sessenta. Depois, com a fundação do Centro Lítero Recreativo de Custódia, ficou mais popular, perdendo espaço para a sociedade organizada. A partir daí surgiram vários bares que marcaram época na Custódia de antigamente. Lembro que no final da década de cinqüenta além do Fênix, existiam o Ponto Certo e o Bar Confiança, este na Avenida Inocêncio Lima, onde hoje existe um supermercado. Mas sem dúvida, nas décadas de sessenta e setenta um dos melhores locais para os momentos de lazer era o Ponto Certo, ao lado de “O Casarão”.

No período em que esteve sob o comando de Deta, o Ponto Certo era bastante animado. Foi um dos primeiros locais a usar decoração e iluminação próprias das boates, onde a juventude da época podia curtir um “cuba libre” ao som inesquecível de Tim Maia, Os Incríveis, Renato e Seus Blues Caps, e tantos outros sucessos da época. Recordo que naquele tempo rolava mesmo era o Tim Maia, com seus sucessos lembrados até a hoje. Lembro bem que as paredes internas do bar eram revestidas com esteiras feitas de fibra do tronco de bananeiras, o que associado a uma iluminação colorida (não recordo se havia a luz negra), dava aspecto agradável, tranqüilo e ao mesmo tempo romântico ao local. Quantas não foram as tardes/noites embalados por músicas inesquecíveis, o vozeirão de Tim Maia cantando “quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar, quer amar quer amar”, acompanhados do papo gostoso e despreocupado entre amigos. Inesquecível!

Nos finais de semana, logo a partir das dez horas começava a chegada dos habituês, aos poucos iam tomando conta das mesas, e por vota do meio-dia não se conseguia mais uma cadeira. Detase desdobrava para atender a demanda dos clientes, servido um tira-gosto pra, um cerveja pra outro, e a bebida mais chique da época: Rum Montilla, com Coca-Cola e Limão, para a maioria.

Em dias de festas – natal, ano-novo, São José, 11 de setembro, a movimentação se tornava intensa. Se antes era freqüentado pela juventude, nesses dias a sociedade excluía a juventude e assumia todas as mesas, espalhadas pelo interior do calçada do Bar. Nunca tive conhecimento de nenhum incidente ocorrido entre a juventude freqüentadora daquele Bar.

É verdade que naqueles tempos de grana curta, não se podia exagerar, mas sempre se arranjava um jeitinho de curtir um final de tarde naquele que era o melhor ambiente da cidade: o “Ponto Certo” da juventude.

Depois, surgiu o Casarão, que já mais incrementado, proporcionou noitadas agradáveis a centenas de jovens custodienses. Amplo salão que servia de pista de dança, decoração atualizada, iluminação apropriada, com o sucesso que era a luz negra atraía a atenção de jovens e adultos, principalmente nos finais de semana, quando a casa se tornava pequena para o grande número de freqüentadores, que se deliciava ouvindo Tinna Tunner e outros sucessos da época. Lourival cativava a todos com tratamento personalizado e amigo. Bons tempos aqueles, que infelizmente não voltarão, a não ser na nossa lembrança.

por José Soares de Melo
Recife-PE

Numeriano Blandino - por Fernando Florêncio




A Paróquia de São Jose, da freguesia de Custódia, passava por um momento de letargia incompreensível. Nem um vigário fixo tinha, muito embora dispusesse de um dos templos mais bonitos e imponentes da região.

Até hoje, não se conhece nenhuma Igreja com torre mais alta e exuberante que, muito embora contrastando com sua imponência, dispunha de apenas dois sinos muito pequenos, que tocados com incrível sintonia por Sebastião (sêo Mama) indicavam chamadas para a missa, novenas, enterros,, batizados… etc.

Quando menos se imaginava, eis que desembarca da “sopa” (ônibus) da Empresa Realeza, um homem muito gordo vestido com uma roupa de cor indefinida, talvez marrom, uma resultante do preto da batina com a poeira vermelha do sertão. Atravessou toda a Praça Padre Leão em direção à Igreja, sob a curiosidade de todos que estavam a “jogar conversa fora” em ambos os lados da praça. Era mais ou menos três e meia da tarde. O andar cadenciado, a cabeça erguida, o peito saliente a mala, enorme e pesada, carregada na cabeça por Sebastião “Miudin,” dava a idéia que aquele homem viera para ficar.

A notícia se espalhou como um rastilho de pólvora.

Viva!!!! Nosso padre chegou!!! São José ouviu nossas preces. Era a glória.

A arrumação da Igreja para a primeira missa do PADRE LUIZ KLUR, mexeu com todos. As toalhas mais alvas ornaram a igreja. As flores mais bonitas foram colocadas nos vasos. O cheiro das dálias, rosas, açucenas, misturados davam uma agradável sensação de limpeza. Não foram usados os tradicionais “cravos de defunto”.

Padre Luiz chegara para substituir o dedicado MONSENHOR URBANO, pároco de Sertânia, que eventualmente dava assistência à nossa paróquia.

Sêo Menino; logo na primeira missa o Padre Luiz implantou seu estilo. Era alemão e sendo alemão, diria o Mução: –Grosso que nem parede de Igreja – foi logo botando pra quebrar.

-Não admitia conversa durante a missa.
-Não admitia interrupções.
-Menino chorão? Nem Pensar. Que ficasse em casa. Ele perdoava. Implicou até com um ceguinho que pedia esmola durante a missa na porta da Igreja. A galera dizia que o padre não queria saber de concorrência.

Diante da gestão ditatorial do Padre, que angariou muitos críticos, entre eles estava Numeriano, cuja magreza e atitudes gozadoras, algumas até curiosas, faziam dele uma figura ímpar. – João Elizeu conta, que certa feita, Numeriano deu um “trupicão” numa pedra, mirou a cabeça do dedão ensanguentada, voltou, olhou para a pedra, e tascou: TÁ QUI PRA VOÇE, OHH!!! E deu uma “banana” pra pedra.

Numeriano costumava assistir a missa aos domingos, encostado na porta da entrada lateral da Igreja, situada no lado direito de quem olha para a praça.

Espirituoso, certa vez uma senhora que chegara atrasada para a missa das sete, sabedoria dos métodos rígidos do Padre Luiz e preocupada se a missa já teria começado, perguntou a Numeriano: 

– A missa já entrou?? Numeriano respondeu: Por essa porta, não!!.

Domingo de Páscoa, igreja cheia, o Padre Luiz discorria a explicação do evangelho que falava sobre a multiplicação dos pães e dos peixes..

Falava que “naquele tempo, Jesus distribuíra para dois discípulos, CINCO MIL PAES MAIS DOIS MIL PEIXES, saciando a fome de todos.

Numeriano captou a mancada que o Padre dera, invertendo as quantidades, comentou para Totinha de dona Bela:

-Ôxe,!!Qual a vantagem.?? Isso até eu faço.

Mesmo cochichado, o Padre ouviu o comentário de Numeriano. Nada disse. Apenas olhou-o por cima dos óculos, como quem diz: Me espere. Quem tem com que me pague não me deve nada.

No ano seguinte, ocorria mesma situação. O padre Luiz dizia: Naquele tempo, Jesus repartiu para cinco mil pessoas, CINCO PÃES MAIS DOIS PEIXES, saciando a fome de todo mundo. Olhou por cima dos óculos em direção a Numeriano, e lascou:

- Faz isso agora Numeriano, que eu quero ver.!!!

Numeriano nem se abalou, só respondeu.:

FAÇO SIM, COM O QUE SOBROU DO ANO PASSADO.

Fernando Florêncio
Ilhéus/BA

Em tempo: Foi no período do Padre Luiz que nossa Paróquia recebeu um novo sino e o relógio.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Lourdes de Deus - Lembranças do sítio


A escritora e pesquisadora, com mestrado e doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade de Paris/8, Mazé Torquato Choti, nascida em Mato Grosso, acaba de lançar o livro "LEMBRANÇAS DO SÍTIO" pela editora ADC. A capa tem ilustrações da artista plástica custodiense LOURDES DE DEUS.  Mazé reside atualmente em Paris,  é casada com o poeta, cantor e compositor Bernard Chotil. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Jornal Portal do Sertão - Janeiro 2012

Nova edição do jornal Portal do Sertão, ano XII, número 115, janeiro 2012.

O custodiense Glaúcio Rodrigues Rafael de Rezende, aparece com destaque em matéria sobre a comemoração de 10 anos da atuação da Rocam em Arcoverde.

Outro custodiense é citado, o locutor Fábio Santos é destacado pela campanha Promoção Ano Novo com Milzão no Bolso, onde foi sorteado clientes junto ao comércio de Arcoverde. Também aparece em nota sobre afastamento da Rádio Custódia FM após 2 anos de destaco serviço junto a emissora.

O jornal é distribuído gratuitamente em todo sertão. Também pode ser acessado, através do blog: 

http://portaldosertaoinfoco.blogspot.com/

Inha um doce de papagaio - Carlos Lopes


Nas festas de ano novo, costuma-se compartilhar bons fluídos e também, escancarar atos contidos de possível redenção.

Neste fim-de-ano encorpada ou não no espírito natalino, quarenta e um ano depois, a minha genitora resolveu abrir o seu o coração. Contou-me como sucedeu o desaparecimento do então papagaio apelidado de Inha.

Eu tinha apenas dez anos de idade quando Seu Amelino, um fazendeiro da região do Riacho do Navio, trouxe o presente e o entregou nas mãos da minha mãe, sob meu olhar festivo.

A ave da família psitaciforme ainda era muito pixotinha a ponto de carecer de cuidados, estes vieram anotados num papel amarelado e entregue junto com a ave de penas multicores.

Os dias que se passaram, foram de cuidados e atenção quanto à alimentação e proteção do novo habitante da casa. Com o passar de alguns meses, nem foi necessário exames de DNA ou laparoscopia para saber se tratar de uma fêmea.

Ela, a Inha, tinha bicos pequenos, peso levemente inferior a um macho e, sinceramente, não lembro se falava alguma coisa.

E por falar em macho, Seu Amelino, a pedido da minha mãe, caça em sua fértil região um outro louro. Este sim, macho todo! Mas, tem um porém: Na dúvida, minha mãe pediu para que já trouxesse um ¨bicho¨ criado e já falando.

A decepção, digamos assim, dos meus pais com Inha, não se deu pelo fato dela não falar ou destambocar as paredes da casa. Diria que foi na fracassada procriação, onde não lhe faltou um tronco oco de árvore, um verdadeiro ninho natural de reprodução.

Não sei se foi pela afeição a uma só pessoa, no caso meu pai, o fato é que o louro macho foi doado a minha avó e mudou-se para Tabira, onde continuou a bicar quem se atrevesse a encurtar distância.

Quanto a Inha, não. Esta não falava, é verdade, mas adorava se exibir e deixar alisar seu dorso ou ser alimentada na mão. Mas não era só isso, substituía em algumas brincadeiras qualquer menino da rua onde moramos.

Nessa época, a minha cidade Iracema, estava sendo ladeada pela chegada do asfalto, e logo ali, pertinho de nós, estavam acampadas três construtoras. Aquelas máquinas, caçambas e peões nos inspirava a construir nossa ¨firminha¨ de carros de brinquedos.

Inha, minha doce fêmea, substituía o melhor dos ¨cassacos!¨ Afinal, a oferta era maior do que a procura. Os meninos da minha rua davam preferência a brincar em quintais de terra batida, o que não era o caso lá de casa.

Além de se divertir embalada na carroceria da minha caçamba com suas asas abertas, Inha ainda dormia sobre minha barriga e até se arriscava a tomar banho de mangueira comigo. Se ela apreciava, não sei dizer, mas também nunca lhe dei o direito da escolha.

Um dia, Inha sumiu! Subi no muro e a busquei pelos telhados da vizinhança. Nada! Não estava na gaiola, no chão ou no jirau. Perguntei e minha mãe disse não saber dela, mas que eu devia ir estudar. Algo me fez supor que jamais a veria.

Meu pai pediu que fosse apanhar cigarros na bodega de Seu Nereu. No caminho, vi um garoto olhando o telhado da igreja. E lá estava Inha, deslizando entre as telhas inglesas.



Não acreditei no que vi.

Eu subir naquela altura? Não poderia! Estava acima das minhas possibilidades.

Padre Mariano, nem um pouco se mostrou amistoso ao abrir a porta da casa paroquial, localizada nos fundos da igreja. Cada vez que eu explicava, pouco ou nada o padre parecia entender. De tanto gesticular, fui ameaçado de um cocorote, punição habitual daquela autoridade com a criançada.

Dona Carmosa, vizinha da igreja e vendo minha aflição, veio tomar tino da situação. Corri até uma certa distância e apontei o telhado. A boa senhora trouxe o velho padre pela mão.

- Olhe ela lá, seu padre? Gritei.

Inha, até parece que só esperava o momento de se despedir. Ficou imóvel algum tempo, pareceu me olhar e de repente alçou vôo! Tive medo que ela desabasse daquela altura, mas suas asas não estavam cortadas. Seu voo era em linha reta, no sentido oposto de onde eu estava. Ela parecia saber estava voando em direção às baraúnas, local onde se concentrava a maior quantidade de árvores de grande porte, já fora da cidade.

Inha voava e cada vez mais se transformava em apenas um pequeno ponto no céu azul.

Ali fiquei. Dona Carmosa e o padre se afastaram conversando sei lá o quê. Mas eu fiquei ali. Olhava para o horizonte, limpava os olhos com a mão, mas Inha, eu não via mais. Naquele momento só um pensamento se apossou de mim:

- Inha não vai voltar! 

Enfim, neste fim de ano de 2011, minha mãe contou a verdade. Ela deixou as asas de Inha crescer e oportunamente a colocou na janela da rua. Deixou que um caminhão barulhento a assustasse. Ela tinha medo de barulhos de veículos pesados. E, um monstro de um caminhão baú não demorou a aparecer!

- E Inha fez o seu primeiro voo ...

Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE

Publicado  dia 17/01/2012 : http://gandavos.blogspot.com/

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Custódia recebe projeto Cultura Livre nas Feiras


Nesta segunda-feira (16/01) Custódia, recebeu uma equipe de técnicos da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE), através da Fundarpe, para uma visita de campo à feira livre. O objetivo é identificar os artistas populares que se apresentam nesse local, para que possam ser inseridos no projeto Cultura Livre nas Feiras. As linguagens desses artistas serão reconhecidas e valorizadas.

Este levantamento será feito em 53 cidades pernambucanas. Até agora, o projeto foi apresentado de forma experimental nas cidades de João Alfredo,Garanhuns, Petrolina, Limoeiro e Gravatá, no Agreste do estado, e Carpina, na Zona da Mata Norte.

O Cultura Livre nas Feiras pretende levar ao cotidiano da população que frequenta as feiras livres, ao longo de 2012, uma multiplicidade de expressões artístico-culturais pelas quais os pernambucanos expressam seus conteúdos identitários, valorizando não apenas os artistas populares mas os usos e costumes presentes naqueles locais onde há grande circulação de pessoas nos municípios.

O projeto integra um conjunto de 20 metas estratégicas para a cultura pernambucana, recentemente pactuadas pelo secretário de Cultura, Fernando Duarte, com o governador do estado, Eduardo Campos. Entre outras metas estão a regionalização do Funcultura, a ação cultural voltada para os povos tradicionais e os festivais Pernambuco Nação Cultural.

Fonte e Foto: http://www.darciorabelo.com.br/

Documentário "O Milagre de Santa Luzia"


Cena do documentário musical O milagre de Santa Luzia, onde Dominguinhos percorre o Brasil mostrando a vida dos sanfoneiros. Nesse trailer o sanfoneiro encontra um grupo de vaqueiros vindos de uma missa em Custódia.


Artigos disponíveis na internet sobre o filme


Mas, nem por isso, Roizenblit e Rinaldo Martinucci, que assinam a fotografia, sabem como explorar as belezas tanto naturais como metropolitanas das cidades visitadas. Uma das cenas mais bonitas, tanto no visual quanto no som, acontece por acaso. É aquele famoso acaso do momento que tanto enriquece documentários quando bem explorados.


A cena acontece em Custódia (PE), onde Dominguinhos se encontra na estrada com um grupo de músicos vindos de uma vaquejada. Todos vestidos a caráter, cantam à capela, ao ar livre. Nesse momento, o filme mostra claramente a comunhão entre a música e o ambiente.” 




Publicado no site: ÚLTIMO SEGUNDO, AGOSTO, 2008)



Passagem de Frei Damião por Custódia



A princípio o taumaturgo descreveu as delícias do céu, os querubins tocando harpa e uma nuvem de incenso vagando no azul, entre anjos e santos. A multidão ouvia em silêncio, maravilhada e boquiaberta. Então, de repente, o frade mudou. Sacudiu os braços e soltou a maldição terrível: – Homens sem Deus, mergulhados na lama do pecado. Amancebados! Mentirosos! Adúlteros! Arrependei-vos de vossos pecados! – E passou a descrever as torturas do inferno. Labaredas subiam, tochas ardendo, um relógio marcando: Sempre! Sempre! Nunca! Nunca! Que são as horas da Eternidade. E no meio da fornalha, o suplício do fumaceiro de enxofre sufocando tudo. Aí a multidão se abateu, lábias ciciavam. “Eu pecador, me confesso a Deus”, almas tremendo de pavor, como corpos sacudidos de maleita. Junto de mim um matuto de Quitimbu tinha os olhos esgazeados. Cheguei mesmo a ver o suor lhe empastava a fronte morena. Uma velha traçou o xale com força, cobrindo a cabeça tôda, temendo a baforada do satanás. E ao meu lado um soldado desatou o lenço que trazia ao pescoço, como se a coisa lhe abafasse a respiração. E, voltando-se para um companheiro, avisou que ia tomar uma “bicada” pois o cheiro de enxofre estava lhe sufocando a garganta. Depois, Frei Damião baixou os braços, serenou a voz. Nunca, na minha vida, vi silêncio maior. A praça parada, o povo de lábios chumbados, os olhos fitos no frade (…) então o frade rezou. E a multidão respondeu, contrita e imóvel, como se, ao invés de milhares de vozes ali estivesse apenas uma só pessoa, postada diante do pregador famoso, na hora do juízo final, prestando contas ao Altíssimo.”


Trecho de Frei Damião – O Missionário dos Sertões livro lançado em 1953, escrito pelo poeta Luis Cristovão dos Santos. Mostra a vida e trajetória de Frei Damião pelo nordeste brasileiro.


Luís Cristovão dos Santos (Pesqueira, 25 de dezembro de 1916 — Recife, 30 de junho de 1997) foi um sociólogo, antropólogo, folclorista, cronista, escritor, promotor público e jornalista brasileiro. Também era conhecido pelos pseudônimos Ziul e Pajeú.

Estudou em Pesqueira e no Recife e concluiu o curso de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, em 1944. Funcionário Público Federal e Estadual, foi promotor de Justiça em diversas comarcas do sertão pernambucano. Diretor do jornal Gazeta do Pajeú durante a década de 1950, foi candidato a Deputado Estadual pela UDN – União Democrática Nacional em 1947 e após obter 1339 votos ficou como suplente, também saiu candidato a vice-prefeito da cidade de Arcoverde em 1955 na chapa de Antônio Napoleão, participou ativamente na história cultural e política de Pernambuco, lutando por seus direitos e defendendo o Estado. Foi Chefe do Departamento Criminal do Estado de Pernambuco de 1976 a 1986. Devido a morte prematura de um filho, aposentou-se como advogado de ofício segundo a OAB, Ordem dos Advogados do Brasil.

Escritor desde adolescente, Luís Cristóvão dos Santos também foi jornalista (A Voz do Sertão, Gazeta do Pajeú, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio), colaborador do Suplemento Cultural do Diário Oficial do estado de Pernambuco e em vários outros jornais do país, dentre muitos outros trabalhos publicados, contribuiu com muitos trabalhos na imprensa nacional e italiana.

Livros publicados:

Hino ao Sertão (1937)
Adolescência (1950)
Bilhetes do Sertão (1950)
Padre Cottart – Um vigário do Pajeú (1953)
Carlos Frederico Xavier de Brito – O Bandeirante da Goiaba (1953)
Frei Damião – O Missionário dos Sertões (1953)
Caminhos do Pajeú (1955)
Brasil de Chapéu de Couro (1956)
Caminhos do Sertão (1970)
Chão de Infância (1983)
Paisagem Humana do Pajeú (inacabada)

Mais sobre Luís Cristovão dos Santos, acessando a Wikipedia.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tambáu - #Dia do Riso


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As festas de fim de ano - Zé Melo

       

Por José Melo

Por esses dias – início de dezembro veio-me à lembrança a alegria que era aquele período, nos meus tempos de criança. Recordo perfeitamente os preparativos para as noites de natal e de ano-novo, na acanhada cidadezinha que era Custódia. 

Já a partir da tardinha, começavam as chegar os “festeiros”. Vinham em cavalos, que ficavam amarrados nos fundos das “casas de arrancho”, geralmente residências de parentes que serviam de ponto de apoio. Automóveis naquele tempo era uma raridade. Apenas o Ford Vinte e Nove de João Correia e a “barata” de Zé Ferreira compunham a frota de veículos de aluguel na cidade. Além disso, apenas alguns veículos particulares, como a “Barata” de Elpídio Pires, o automóvel de João Miro e só. Caminhões, apenas o de Sêo Olegário, o de Claudionor e o de Livino Ferreira. 

A velha Praça Padre Leão – o “Quadro”, como era chamada, preparava-se para receber a multidão de sertanejos que vinham para “passear” na praça. Aquela multidão passava a noite praticamente toda, dando voltas pela praça. Casais de namorados apaixonados, de mãos dadas, ou os mais “modernos” abraçados, velhos andando lentamente, crianças correndo, outros sentados “nos bancos da pracinha”. 

Vez por outra um dos rapazes se dirigia a um dos becos, para colocar “extrato” no rosto. Extrato era um perfume barato, de cheiro forte e irritante, que os “da rua” chamavam de “Quebra na esquina”, justamente pela forma com os jovens iam colocar o dito cujo. Ainda lembro de duas marcas desses perfumes, que vinham em pequenos tubinhos de vidro, do tamanho e forma de um cigarro. Era o Royal Briar e o Dyrce. Vendi muito desse produtos nas noites de fim de ano. 

No centro da parte da praça que ficava mais próximo à Igreja, era armado o carrocel, se não me engano de João Preto. Na parte de baixo, próximo ao atual prédio do Banco do Brasil, era instalado o parque de “Seu Duda” Ferraz, pai de Adamastor, meu sogro. Ali ficavam as canoas, que nada mais era que pequenos balanços em forma de canoa, destinadas ao mais jovens, fortes para impulsionar as canos e corajosos para subir bem alto nas canoas. Havia verdadeiras disputas para ver quem subia mais. Passava a noite inteira se balançando até com fila de espera. Tinha também o Juju, destinado às crianças, que por isso geralmente encerrava as atividades logo cedo da noite. Para os idosos, um equipamento que nunca vi similar em parque nenhum: a Onda, que era um enorme círculo pendurado por fortes vergalhões a um mastro central, com vários assentos. Quando lotado, era impulsionado manualmente, e ficava girando, subindo e descendo. Louro Zeferino foi um dos últimos empurradores da onda. 

No Bar Fênix, o baile de natal, destinado a sociedade local. Praticamente exclusivo dos moradores da cidade, pois o ingresso era “caro” para os rurícolas, que lotavam os vários forrós espalhados pela cidade. Na “Bomba”, no “Alto”, nas ruas próximas ao centro se realizavam tais bailes. Era o autêntico forró pé-de-serra, com sanfona, zabumba e triângulo. Tinha o “tirador de cota”, que cobrava a taxa para pagar o sanfoneiro. Sempre havia o que hoje aqui na cidade chamam de “baculejo”: Alguns policiais ocupavam todas as saídas enquanto outros “corrigiam” os dançarinos, que era uma revista em busca de armas. 

Não raro ocorriam brigas, geralmente motivadas por discussões tolas, geradas pelo consumo exagerado da “branquinha”, ingerida no “butiquim”, que era improvisado barzinho num recanto do salão de danças. Também motivo de briga, era o “cavalheiro” ser “cortado” pela “dama”. Explico: o rapaz chamava uma donzela para dançar. Se ela não quisesse, isso era considerado uma ofensa, chamada “Corte”. Se o rapaz fosse “brabo”, ele não permitiria que ela dançasse com outro. Isso era o estopim para inúmeras brigas. Tais brigam por vezes deixavam feridos à faca, arma mais comum naquela época. 

Por toda a extensão da primeira parte da praça, ficavam as barracas de guloseimas. Barraquinhas que vendiam bolo de milho, tapioca, doces, café etc. Nenhuma dessa seduzia a meninada tanto quanto a de dona Aurora, uma senhora obesa que fazia verdadeiros quitutes para delírio da molecada. Bolo de goma, suspiros e salgadinhos faziam a festa dos meninos e meninas de então. 

Havia na época, um costume interessante (para a meninada): era permitido a toda criança pedir “as festas” aos adultos, que geralmente davam moedas que serviam para comprar desde os quitutes de Dona Aurora, até “bolas de encher”, o Japonês de Zé Benício, até pagar as “carreiras” no carrocel ou nas “Canoas”

Também havia um verdadeiro “cassino”, com jogos de azar espalhados pela Praça: “Maior Ponto”, “Explandim” “Caipira”, “Roleta”, Tiro ao alvo (com espingardas de ar comprimido) etc. Nos fundos do Bar Fênix, ouro cassino. Mesas de jogo de baralho disputavam a preferência dos jogadores em busca de lucro fácil. Tudo isso sem falar nos espertalhões de plantão com suas arapucas para enganar os tolos, na Praça, demonstrando como era fácil ganhar no jogo do “essa perde, essa ganha”, da correia, do dedal entre muitos outros. Fiquei impressionado neste final de ano (2011), ao observar que ainda existe alguns tipos desses jogos em pleno centro da cidade. 

A partir das três horas da manhã o movimento ia diminuindo, até o raiar do dia que encontrava a praça deserta, apenas alguns “bêbos” retardatários caídos nas calçadas, aqueles que trabalharam durante a noite na festa, tomando uma cerveja para encerrar o expediente, e mais ninguém. Todos se recolheram aos seus leitos, ou enfrentaram a volta para casa, na zona rural, em lombo de cavalos, burros e jegues. Cansados, mas felizes. E já fazendo planos para a próxima festa em Custódia.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Futebol Custodienses - Anos 67 a 72

Cada dia mais empolgada com este blog, porque através dele revivemos tantos momentos da nossa vida/cidade e ainda ficamos “por dentro” de tudo o que é mais novo: por exemplo “Daniel (filho de Nadilson e Rejane) escritor da melhor qualidade. 

A gente termina se encontrando nos seus escritos… no que um dia pensamos, sonhamos… em escrever… Aí procuro meu álbum de fotografias procurando contribuir com este cantinho…. e, ….encontrei fotos do futebol Custodiense :

I – Ano 1967 – Time do Ginásio M. Padre Leão

Em pé: Elione, Zé Esdras, Joel Lima, Genival Mariano, Dadá de Zé de Noca (goleiro) , Xia seu irmão (sem posição ou técnico?). 

Agachados: Antonio Ely, Marcos Moura, Hélio(não tenho certeza desse), Feitosa (meu irmão) e meu grande amigo Fernando Vitor.


II – SANTA CRUZ FUTEBOL CLUBE DE CUSTÓDIA – Ano 1971

Nos escritos que fiz para meu irmão Ferdinando Feitosa no seu cinqüentenário, constava: “Não sendo um craque da bola, mas gostando de jogar, criou o seu próprio time, prá no banco não ficar, não pode ser o Sport – seu time do coração, na cidade tinha outro usando aquele padrão, criou o seu Santa Cruz pra resolver a questão”.

Taí a foto: Este time foi criado em 1971 e deve ter perdurado apenas até 1973. A sua atuação se restringia as férias, uma grande parte estudava em Recife, mas fazia festa nas tardes de domingo, quer seja em Custódia ou nas cidades circunvizinhas – era o intercâmbio de nossas cidade interioranas – Custódia, Sertânia, Serra Talhada, Flores, Afogados, Floresta……

Quase sempre, à noite, tinha um bailinho…

Em pé: Urbano, Josa de Zé Siqueira, Jorge de Claudionor, Ferdinando, este não lembro o nome, Rui Mariano, Elione, o goleiro( não lembro o nome mas sei que era cunhado de Zé de Arnou). 

Agachados: Zezinho de Diva, Bartolomeu Quidute, Evaldo, Antonio Ely, Fernando Vitor e Zé Esdras ( que pela roupa devia ser o técnico).

Texto e fotos: Célia Barros

Passagem de Lampião por Custódia




Quando esse fato ocorreu, Custódia ainda era uma vila pertencente a atual Sertânia, antiga Alagoa de Baixo. Lugar aconchegante e simpático, de uma gente bastante ordeira, dedicada ao comércio, a agricultura de subsistência e criação de bode.

É uma das cidades sertanejas que mais têm se destacado como lugar de paz, mesmo quando o restante da região sofre com atormentadas encrencas de famílias, que levam muitos à morte. Em Custódia, mesmo com os problemas que lhe são pertinentes por ser uma cidade igual às outras em qualquer parte do Brasil, o sossego reina.

O dia vinha amanhecendo – 11.02.1925 – como outro qualquer. Mas quem ia abrindo a janela ou a porta de casa ia tendo uma grande surpresa ao se deparar com um grupo de cangaceiros em plena praça. Uns sentados no chão, outros escorados nas árvores, na maior tranqüilidade que se possa imaginar. Quem vinha passando para ir ao açougue comprar carne ou verdura apressava o passo com receio que pudesse acontecer ao dar de cara com Lampião e seus quarenta cabras.

Nos arredores que dão acesso as estradas da vila encontravam-se pequenos grupos de três ou quatro cangaceiros para dar segurança aos que entraram na rua principal.Essa tranqüilidade dos cangaceiros devia-se a Lampião estar informado, misteriosamente, não se sabe como, que os praças do destacamento local haviam fugido logo antes do amanhecer, na chegada dos visitantes, avisados por alguém. Ficaram apenas dois, que naquela noite não estava dormindo no quartel, e sim em suas residências. Eram eles, João de Paula e Pedro Soares. Esse último era um negro apelidado de Capuxu.

As autoridades do campo da política também haviam fugido sem tomar nenhuma medida. Eram os senhores Ernesto Queiroz e Dr. Tenório. As poucos as pessoas foram se chegando e conversando com os cangaceiros, a meninada com toda sua curiosidade fazendo mil e umas perguntas e eles respondendo, contando histórias para impressionar os presentes que ima se aglomerando mais e mais a cada instante. Quando a cidade já estava totalmente acordada os cangaceiros se espalharam em turmas e foram para as bodegas fazer compras, beber cachaça, e tudo era pago corretamente.

Lampião, acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, e de seus cabras Luiz Pedro, Félix da Mata Redonda, Fato de Cobra, Chá Petro, Chumbinho, Sabino, Sabiá, André e Jurema se dirigiram para os maiores comerciantes do lugar, Zé Moura e Zé Rouxinol, deixou claro que aquelas passagem por ali era apenas para aquisição de munição, mas casa não tivesse a munição aceitava o dinheiro para comprar posteriormente. Em toda casa ou pessoas que encontravam e pediam dinheiro, explicava o Rei do Cangaço:

“-Arrepare não a gente ta pedindo assim. É porque o governo num dêxa nóis trabaiá”.

Ao chegarem numa casa encontraram o soldado Capuxu e pediram a arma.

“-Só eu indo buscar no quarté”.

Respondeu, sem titubear, o milico.

Lampião disse:“- Se tivesse mais macacos com você, era capaz de brigar com meus meninos?”

Como se diz aqui no sertão, a resposta foi em cima da fivela.

“- Sim. Cumpriria meu dever até a morte”.

E acrescentou:

“- Se estivesse num grupo de cangaceiros também faria a mesma coisa”.

Lampião sorriu e mandou o soldado ir embora sem constrangimento. Assim que o militar retirou-se, o chefe dos cangaceiros virou-se para seus cabras e disse:

“- Home desse tipo tem que ficar vivo para tirar raça de gente valente”.

Enquanto Lampião circulava pela vila conversando com os comerciantes e pessoas influentes do lugar, o restante da cabroeira, pelas bodegas, no meio da praça ou onde estivessem, eram alvo de admiração de muita gente. Aqui e acolá alguém pedia para dançarem um pouco de xaxado, e dançavam com satisfação. Alguns rapazes e meninos procuravam imitá-los arrastando o pé no ritmo da “dança de cabra macho”.

Ao atravessar a rua encontrou Valdevino Alfaiate abrindo sua alfaiataria. Cumprimentou e pediu para olhar o mostruário. Enquanto olhava os tecidos o mestre da tesoura perguntou:

“- Lampião, é verdade que esses homens são muito valentes?”

Rindo, respondeu:

“- Home, qui us cabras são atrevidos, lá isso são. Mas comigo eles já sabem como são as comidas…I têm que comê sem inguiá”.

Agradou-se de um certo brim e perguntou ao alfaiate se seria possível confeccionar um terno para entregar ainda naquele dia, puxando até a boca da noite. Respondeu que sim. Em tom de voz bastante calma e branda, Lampião teve o cuidado de dizer:

“- Se você acha que fazendo esse trabalho pra mim, pode causar problemas pra sua vida, então não faça. Não tem problema nenhum”.

O profissional disse apenas que faria aquele terno com o maior prazer e iria, a partir daquele momento, mobilizar toda a sua equipe para entregar na hora desejada. Foram tiradas as medidas e puseram mãos a obra.

Saiu da alfaiataria e rumou com seu grupo para a mercearia de Jovino Costa Leão, onde estava outros cangaceiros bebericando e cantando, ritmando com palmas. Lampião dançou um dos passos de xaxado para umas moças que estavam olhando de longe.

Agora se dirigia para a farmácia quando encontrou o coletor José Guilherme, que a partir desse momento andaram todo tempo juntos, fazendo as visitas.

Na farmácia, pertencente ao farmacêutico Joaquim Pereira da Silva, comprou mercúrio, gases, comprimidos Bayer, pagou e pôs o pacote das comprar no bornal. Pediu ao mesmo que verificasse uns dois cangaceiros que já poucos dias foram feridos num tiroteio acontecido em Cachoeira dos Galdinos, contra volantes de Betânia e Nazaré. Os ferimentos não eram graves. Vinham tratando até ali com casca, raízes e folhas, mas se agora estavam numa farmácia, nada como um especialista. Joaquim justificou que para cuidar de ferimentos, seu amigo e também farmacêutico, era mais preparado, e assim, chamou o colega, que tinha o nome de Manoel Cristovão dos Santos. Este demonstrou muita habilidade no que fazia. Cuidou dos ferimentos dos cangaceiros com muita maestria.

Lampião, que a tudo assistia, ficou admirado com a presteza, atenção e, sobretudo, com a aptidão em tratamentos desta natureza que o jovem Manoel demonstrava, que de imediato convidou a ingressar no cangaço, para ser o médico oficial do seu grupo.

A resposta foi negativa, mas mesmo assim, agradou mais uma vez ao Rei do Cangaço:

“- Lampião, hoje tenho família pra cuidar. Mas toda vez que precisar de mim pode me procurar. Se for o caso, pode mandar um dos seus meninos me avisar que irei na hora”.

Sempre acompanhado, Lampião chega agora à residência de um cidadão chamado Zé de Moura, cumprimentou toda sua família gentilmente, comeu uns doces e sentou-se numa espreguiçadeira na calçada. Disse bonachão:

“- Ô Zé, tu vive dizendo que eu num entro em Custódia, qui si eu vim aqui, morro”.

Antes do trêmulo pai de família dizer uma palavra, ouviu o complemento:

“- Deixe de ser besta, Home. Agora tô eu aqui na tua espreguiçadeira, na tua calçada…”.

Após uns quarentas minutos conversando a vizinhança e curiosos que vinham lhe visitar e prosear, viu passando uma pessoa que disseram ser o telegrafista. De fato, era o agente do telégrafo Kepler Lafaiete. Lampião chamou o rapaz e foram todos para o posto e enviaram uns telegramas para o Governador do Estado, Sérgio Loreto, com uma série desaforos, chamando o chefe do Estado de covarde e que mandasse o chefe do birô dando ordens, empurrando os soldados no fogo. Interessante, esse telegrama foi a única coisa que Lampião não pagou quando esteve em Custódia. Disse debochadamente ao telegrafista:

“- Não vou pagar esse telegrama porque o telégrafo é do governo. Além do mais estou enviando para o próprio governo. Se eu pagar estou roubando eu mesmo”.

Todos que estavam ai riram da caçoada do Comandante das Caatingas.

A noite vinha chegando e a maioria do bando, com Lampião à frente, chegaram na casa do comerciante Zé Rouxinol. Como fora combinado previamente, um farto jantar foi servido, com os cangaceiros se revezando na mesa com os que estavam montando guarda.

Já estava dando horas da noite quando Lampião chegou à alfaiataria e o Valdevino estava sentado em sua confortável cadeira aguardando seu famoso cliente. Este chegou, verificou a roupa, gostou. Não queria experimentar tirando o que estava vestindo. Abriu o bornal e tirou uma nota alta e pagou conforme combinado.

“- Lampião, pra mim o trabalho só é completo quando o freguês testa”, disse o alfaiate.

Lampião não contou conversa. Foi na camarinha, se desequipou todo e vestiu a roupa nova:

“- Está ótima!”.

Disse Lampião abrindo um sorriso. Foi motivo de alegria também para o mestre.

Despediram-se.

Em seguida o alfaiate fechou seu estabelecimento e foi apressadamente pra casa.

Quando os cangaceiros foram beber nas bodegas e mercearias, bater pernas pelas calçadas, conversar com as pessoas, até a madrugada chegar.

Quando Custódia dormiu, os cangaceiros desapareceram dentro das caatingas.

Trecho retirado do livro LAMPIÃO nem herói nem bandido A História, de Anildomá Willians de Souza, lançado em 2007 pelo escritor que é membro da Academia Serra-talhadense de Letras e da União Brasileira de Escritores/PE.

Contato do autor:
Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 – Cohab
56.909-110
Serra Talhada-PE
Telefone: (87) 3831-2041
E-mail: cabrasdelampiao@bol.com.br

 
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